Novos horizontes para a agricultura familiar

Produtos da agricultura familiar servem a merenda escolar da rede estadual de ensino Na foto: Saída dos produtos da agricultura familiar da EBDA  - Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola Foto: Carol Garcia / SECOM

Produtos da agricultura familiar servem a merenda escolar da rede estadual de ensino.  (Foto: Carol Garcia / SECOM)

Por Gabriela Ferreira*

Em meio ao crescimento populacional, às desigualdades sociais provenientes da falta de uma distribuição justa de riquezas e às questões socioambientais que afligem todo o planeta, o tema da segurança alimentar e nutricional [1] surge como uma das grandes preocupações atuais das agendas políticas nacionais e internacionais.

A grande questão, associada à promoção da segurança alimentar e nutricional, é como oferecer às populações acesso à alimentação balanceada e diversificada contemplando, também, as dimensões culturais e ambientais que fazem parte da produção de alimentos e dos hábitos alimentares das comunidades locais.

Nas últimas décadas, o processo produtivo de alimentos sofreu grandes transformações em escala global, devido à revolução verde (produção agrícola baseada em monocultura, mecanização e agrotóxicos) e ao processamento industrial dos alimentos, aspectos atrelados ao surgimento e crescimento das grandes corporações multinacionais da área agroalimentar.

Estes novos processos geraram uma crescente padronização dos hábitos alimentares e uma diminuição do consumo de alimentos regionais, desvinculando, assim, os alimentos do seu território de origem. Neste sentido, o Brasil é um país que se destaca por atuar de forma significativa na internacionalização do sistema alimentar, devido a sua produção e exportação de commodities[2] agrícolas.

Diante dos impactos negativos oriundos da crescente padronização e industrialização dos alimentos e da urgência em garantir a segurança alimentar e nutricional das populações ao redor do mundo, a agricultura de base familiar[3] se destaca como uma forma de produzir alimentos que conseguem contemplar o aspecto cultural, aliado à sustentabilidade ambiental, social e econômica.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), 70% dos alimentos consumidos no mundo são provenientes da agricultura familiar. Já no contexto brasileiro, o Censo Agropecuário[4] realizado pelo MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) em conjunto com IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que a agricultura familiar é a principal fornecedora de alimentos básicos para a população brasileira, representada por cerca de quatro milhões de famílias produtoras.

Participação da Agricultura Familiar no Brasil

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Fonte: Censo Agropecuário, 2006. (MDA/IBGE)

A agricultura familiar também se destaca por permitir o resgate e a conservação dos conhecimentos e saberes associados ao cultivo e uso de alimentos locais e regionais, o que contribui para a manutenção da cultura e identidade de um povo e para a manutenção da diversidade nas formas de cultivo e hábitos alimentares.

O reconhecimento e valorização das espécies nativas por estes agricultores, conserva a agrobiodiversidade e também oferece a possibilidade de cultivo de base agroecológica[5], sem defensivos e adubos químicos, uma vez que grande parte destas espécies, por serem rústicas, se desenvolvem facilmente em seu ambiente de origem.

Na dimensão econômica, por sua vez, o trabalho desenvolvido pela agricultura de base familiar representa uma oportunidade para impulsionar as economias locais e regionais, proporcionando geração de trabalho e renda para as comunidades produtoras.

Todos estes aspectos demonstram a importância desta forma de produção de alimentos como estratégia essencial para o combate à fome a desnutrição, e, consequentemente, para a promoção da segurança alimentar e nutricional e do desenvolvimento sustentável em âmbito local e global.

Deve também ser ressaltado o potencial pedagógico que reside neste tipo de agricultura. O trabalho e o conhecimento do agricultor familiar também estão envolvidos no caminho que o alimento percorre até chegar às nossas mesas: cultivo, colheita, beneficiamento, distribuição, venda e consumo. Desta forma, o agricultor também se destaca por articular e dar sentido aos aspectos socioambientais deste ciclo, o que mostra a sua importância como educador ambiental no território em que atua.

Por fim, vale citar que este tema e todos seus aspectos serão oportunamente discutidos este ano pela Organização das Nações Unidas (ONU), que declarou 2014 como o Ano Internacional da Agricultura Familiar (AIAF)[6]. O objetivo do projeto é reposicionar a agricultura familiar no centro das políticas agrícolas, ambientais e sociais das agendas políticas nacionais, por meio de uma ampla discussão e cooperação no âmbito nacional, regional e global a respeito dos desafios e oportunidades relacionados ao tema.

[1] A segurança alimentar e nutricional é conceituada, de acordo com a II Conferência Nacional de SAN (Olinda, 2004), da seguinte forma: “…é a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis.”

[2]Commodities (mercadoria, em inglês) é um termo usado para referenciar produtos de base em estado bruto – matéria prima – ou em estado mínimo de industrialização. As commodities são produzidas em grandes quantidades e apresentam nível de negociação global.

[3] De acordo com a FAO/ONU, a agricultura familiar é considerada como um meio de organização das produções agrícola, florestal, pesqueira, pastoril e aquícola que são gerenciadas e operadas por uma família e predominantemente dependente de mão-de-obra familiar.

[4] Disponível para consulta em http://sistemas.mda.gov.br/arquivos/2246122356.pdf

[5] Agroecologia pode ser conceituada como um campo de conhecimento de caráter multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias que nos permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas de forma sustentável ao longo do tempo. Para mais informações consulte: CAPORAl, F.R; COSTABEBER, J. A. Agroecologia. Enfoque científico e estratégico. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável,Porto Alegre, v.3, n.2, abr./junh.2002.

[6] Para saber mais, acesse http://www.fao.org/family-farming-2014/home/pt/

* é gestora ambiental formada pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Atualmente, desenvolve projetos e pesquisas na área da Educação Ambiental, Agroecologia e Políticas Públicas.

Texto revisado por Jaqueline Zanon

 

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Categorias: Meio Ambiente, Política, Sociedade

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