Isto não é um cachimbo.

Isto não é um cachimbo. De Caetano Patta.

Isto não é um cachimbo. De Caetano Patta.

A gestão municipal iniciou o projeto “Braços abertos”, uma nova abordagem aos usuários de crack em São Paulo. O projeto destoa do que vem sendo feito em todo o país e, o que é mais nítido e provocativo, da forma como as gestões municipais de São Paulo vinham lidando com o problema. A orientação de criminalização, internação compulsória e violência policial contra os usuários sai de cena. Em seu lugar, entra uma ação integrada de diferentes secretarias (segurança, trabalho e empreendedorismo, saúde e desenvolvimento social) que consiste em garantir moradia, trabalho e refeições para os dependentes, além do atendimento médico. Sai a solução inspirada na norte-americana de “Guerra às Drogas”, dos anos 70, que considera a face degradante da droga a origem dos problemas pessoais e sociais. Entra uma visão nascida na Europa de considerar o uso degradante da droga como sintoma de problemas anteriores na vida particular e na sociedade, e não como causa. Admite-se: é redução de danos, não passe de mágica.

O projeto é baseado no entendimento de que os dependentes de crack são seres humanos, e não são zumbis, como construiu-se no imaginário do senso comum, numa visão que serve de lastro para o encarceramento de uma população que é majoritariamente negra e pobre, com a qual o Estado tem dívidas históricas.

Mais uma para a coleção de polêmicas da prefeitura com o status-quo, com os imponentes setores conservadores que dominam a cidade de São Paulo. Eles têm um novo desgosto de que tratar no happy hour: o “Bolsa Crack”.

O projeto tem críticas possíveis, ou ao menos traz à superfície a complexidade dos problemas sociais de São Paulo e a fragilidade de projetos em outras esferas, o que deve ser admitido. Os hotéis disponibilizados aos usuários são fundamentais. Entretanto, trazem consigo a comprovação de que uma política mais agressiva de habitação é necessária. O desmonte da pequena favela da rua Helvétia se repetirá caso moradias permanentes não sejam garantidas, por exemplo. A primeira ação do programa tem um Q de “piloto”, tendo atendido inicialmente 400 pessoas. Atender os 60 mil usuários de crack da cidade de São Paulo nesses termos exigirá mais e/ou tornará explicito, ao longo de sua implementação, o déficit social que recai justamente sobre essa população pobre em diversos âmbitos: casas, creche, formação profissional, etc. No limite, ao humanizar o dependente, o sucesso do programa passa a depender da humanização da cidade de São Paulo, de seus investimentos e prioridades.

São Paulo busca novas soluções amparadas em uma visão mais humanista para os seus crônicos problemas; e enfrenta as dificuldades e dilemas aí envolvidos. Enquanto isso, os setores mais conservadores da cidade se contorcem nos editoriais de seus grandes jornais pelo alto e nos seus assustadores comentários em portais de notícias por baixo. Há quem não aceite uma política específica que humanize o pobre, que o trate com a mesma lógica com que se trata o rico ou a classe média, reconhecendo ao mesmo tempo a particularidade do problema e a igualdade entre os cidadãos.

Isso não é um cachimbo antes de ser a cerveja “de todo mundo”. Isso não é um crackeiro antes de ser um ser humano. Isso não é isso, é alguém. E esse alguém é um ser humano e um cidadão com direitos exatamente como eu e você. Isto, assim nesses termos… isso é demais para o conservadorismo paulistano.

 

Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador. Reúne alguns trabalhos no blog ociosobretela.tumblr.com

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2 Comentários em “Isto não é um cachimbo.”

  1. 21/01 às 19:44 #

    Olá Luciana, tudo bem? Sou “o autor”. Meu objetivo foi justamente escrever sobre o crack, os usuários e a proposta de nova abordagem a esta situação. Os discursos que se criam em torno de questões sociais complexas como esta, todavia, são parte do problema, uma vez que servem de baliza para as ações de cada esfera do poder público (prefeitura, polícia, justiça) e da sociedade como um todo. Desta forma, não julgo que fuja ao tratar do problema as referências à setores da sociedade e seus discursos. Antes, enxergo aí uma necessidade para se construir um entendimento amplo da questão e de seus desdobramentos. A qualificação que dou a estes setores e discursos são carregadas sim de julgamentos, assim como elas próprias também o são. Abrindo mão das perguntas retóricas, imagino que seu apontamento se deve à “conservadores”, “happy hour”, “bolsa crack” e “assustadores”. Essas expressões trazem o julgamento do autor, sem dúvida. Entretanto, não debocho ou ridicularizo “de antemão”. Conservadores são aqueles que conservam e, portanto, os que exigem a manutenção da antiga forma de tratar os usuários de crack, em oposição à nova abordagem proposta pela atual gestão municipal. “Bolsa crack” foi uma expressão com a qual me deparei diversas vezes em diversos portais de notícia ao fazer uma pequena pesquisa que embasasse essa reflexão. Em grande parte dos casos ela vinha acompanhada de reivindicações de que os usuários fossem tratados como “bandidos”, “presos” e que se sentiam injustiçados pelo programa “braços abertos” ser o destino de seus impostos. Para além dessas referências, há aquelas que clamam pela morte dos usuários ou dos idealizadores do projeto. Estas últimas preferi apenas qualificá-las como “assustadoras”. As referências, portanto, Luciana, não são um deboche ou ridicularização despropositada, e sim o próprio debate, o diálogo com o que está sendo argumentado por aí. Ou seja, a bola está rolando, uma política foi lançada. Há pessoas sugerindo que se volte à política anterior ou que se mate os usuários. Na humilde opinião do chargista – que sou apenas mais um internauta que também carrega suas opiniões e juízos -, essas pessoas fazem parte da questão, uma vez que são uma força que se coloca contra a guinada pretendida pela prefeitura; e devem ter seus posicionamentos avaliados assim como a parte “técnica” do problema. O jogo está aberto. O programa pode continuar ou não e as opiniões, todas elas, são fatores que irão determinar os rumos da política para a questão do uso de crack em São Paulo. Agradeço imensamente pela disposição em debater e por acompanhar o Gusmão. Faz parte dos nossos objetivos estimular os debates sobre temas de interesse público contando com diferentes visões.
    Um abraço,
    Caetano Patta.

  2. Luciana R
    20/01 às 01:01 #

    Mais do que escrever sobre o crack, os usuários e a resolução dessa questão, me parece que o autor quer é atacar setores da sociedade que ele já rotulou, das quais debochou e ridicularizou de antemão.

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