JK Iguatemi e o “Rolezaum”: Reproduzindo a lógica da exclusão?

7538918400_08e091a0eb_bpor Juliana Moura Bueno*

No cruzamento das avenidas Juscelino Kubitschek e Nações Unidas, está este espaço imponente, de quase 36mil m², que abriga lojas exclusivas de grifes como Prada, Lanvin, Dolce & Gabanna, Burberry, Yves Saint Laurent etc, e também marcas brasileiras conhecidas por serem acessíveis a poucos. O shopping JK Iguatemi, inaugurado em meados de junho de 2013, é um centro de compras construído para ser um espaço onde endinheirados paulistanos possam encontrar marcas internacionais – que, até então, não estavam no país –, mas não apenas, com atendimento, produto e preço diferenciados (“diferenciado” me parece ser um jargão bem aceito no meio!). O público AAA é então atraído para um local onde se sinta à vontade para gastar sua fortuna tranquilamente, basta uma única tarde de passeio.

Quem já foi ao shopping JK Iguatemi sabe que, com exceção aos horários de almoço e aos finais de semana, o espaço, que se assemelha a um templo de mármore de alguma seita não-identificada, parece uma passarela intocada, e impressiona por sua pouca circulação e pouco barulho em seus corredores – a impressão é de que está quase “às moscas”. Mas isso deve ser porque, talvez, ele não tenha nascido para ser um shopping de alta circulação mesmo, o que faz jus aos costumes do público que o frequenta – afinal, desde quando a elite paulistana gosta de estar no meio de “muvuca”?

Há umas boas semanas, ainda em 2013, fui convidada a participar de um evento no Facebook chamado “ROLEZAUM SHOPPIN”. Estava marcado para o dia 11 de janeiro de 2014, um sábado. Em geral, os “rolêzinhos” ou “rolezins” (caracterizados por um tipo de encontro que se assemelha a um ‘flashmob’ também é convocado por redes sociais, mas tem como especificidade serem organizados por jovens de classes menos favorecidas nos quais os participantes se propõe a ocupar espaços que consideram hostis à sua fração de classe: socializam, como se fosse um passeio a um lugar qualquer, ouvem funk e ouvem também outros ritmos, sem necessariamente seguir o padrão – por vezes segregador – do lugar que frequentarão) tem sido marcados para ocorrer em shoppings, tanto em bairros periféricos, quanto, como no episódio do shopping JK, no centro expandido da cidade de São Paulo e também em outras cidades pelo país.

Entendi que tal iniciativa, para a qual fui gentilmente convidada pelo jovem Giancarlo Ferreira que agora até sendo procurado pela Polícia Militar para dar explicações está, somava-se aos esforços de escancarar que há muitos espaços na cidade que não são ocupados por uma parcela da população. Em especial, aquela excluída socioeconomicamente, e que mora em áreas menos nobres da cidade, tem acesso a serviços de menor qualidade (quando tem), gasta horas e horas no deslocamento diário entre suas casas e seus locais de trabalho – ou seja, aquela [grande] fração da população que historicamente foi alijada do convívio nas áreas mais nobres das grandes metrópoles.[1]

Na descrição do evento do “Rolezaum” no JK Iguatemi, e nas postagens e enquetes que lá surgiram, não vi, uma vez sequer, incitação a qualquer tipo de depredação do patrimônio público e/ou privado como sendo intuito de quem dele participaria. Parece-me que o evento foi criado, de fato, na intenção de ocupar um espaço destinado exclusivamente aos chiques & famosos e que, normalmente, não permite, não por barreiras formais, mas por outras que talvez sejam até mais perversas, a circulação de pessoas desfavorecidas – leia-se: negras e pobres.

Mas o evento acabou tomando proporções maiores, inclusive midiáticas, justamente pelo fato de que a direção do shopping JK Iguatemi tomou medidas preventivas para que o “Rolezaum” não ocorresse em seus espaços, e para que seus 2686 convidados confirmados fossem impedidos de circular pelo empreendimento da construtora JHSF. O respaldo que a empresa obtivera, com a decisão judicial que “protegeria” as dependências do shopping, estava anunciado por cartazes colados em suas portas:

O shopping JK Iguatemi esclarece que obteve liminar no sentido de proibir a realização do movimento ROLEZAUM NO SHOPPIM nos limites do empreendimento, quer em sua parte interna ou externa, sob pena de incorrer cada manifestante identificado na multa de R$10 mil por dia.”

Ao ler a liminar proferida pelo juiz Alberto Gibin Villela, da 14.ª Vara Cível da Comarca de São Paulo, percebe-se que o impedimento da entrada de manifestantes nas dependências do JK Iguatemi teria sido feita de forma preventiva, para “resguardar o direito de quem ali trabalha, e ali faz suas compras, dos consumidores”. Além do mais, o juiz Vilella também deu ênfase especial ao fato de que o local se tratava de uma propriedade privada e que, manifestar-se, por mais que fosse direito garantido na constituição, tinha seus limites – sem precisar quais, especificamente, seriam esses limites, ainda que sua fundamentação também pudesse, imagino eu, ser alvo de críticas. Sem me aventurar muito pelo mundo das interpretações das decisões judiciais, não acredito que seja necessário ser especialista em Constituição Brasileira para constatar o óbvio: a liminar deferida por Vilella é muito inconsistente com relação às justificativas colocadas para se impedir a entrada de menores desacompanhados sob pena de R$10 mil reais o dia (!!!).

O medo dos administradores do shopping do evento era tanto que garantiram, inclusive, que as portas automáticas fossem desligadas, que um batalhão de policiais e advogados acompanhasse toda a movimentação, que empregados do shopping fossem revistados e até barrados – acho, inclusive, que vale pontuar a reflexão sobre minhas suspeitas a respeito de que “tipo” de funcionário foi impedido de entrar no seu local de trabalho; tudo isso, para continuar tendo fé na humanidade, e, mais especificamente, no judiciário brasileiro.

Havia lá de prontidão no local até mesmo um oficial de justiça, resguardando o cumprimento da liminar. Segundo reportagem da revista Veja, “o oficial de Justiça Thiago de Pierri manteve-se de plantão para identificar possíveis líderes do movimento. ‘Se reconhecermos o criador do evento, Giancarlo Ferreira, ele será autuado e levado para questionamento.’

Para espanto de muitos e alívio dos aterrorizados por eventualmente terem que dividir espaços com gente da periferia, a tal decisão judicial, deveras questionável, tanto em seu conteúdo quanto em suas motivações, conseguiu barrar pessoas de se agruparem em algum espaço porque supostamente cometeriam, em um futuro próximo, alguns abusos. Ao pressupor que um grupo de jovens de periferia fosse cometer crimes, antes mesmo deles ocorrerem, e sem fato que pudesse validar qualquer tipo de suspeita, parece-me que outros abusos, decorrentes da decisão judicial equivocada, aconteceram. Desde a vistoria descabida de todos aqueles (Selecionados pelos seguranças) que quisessem entrar no shopping, até o próprio impedimento de que o “rolezaum” acontecesse, reproduzem a lógica da exclusão das grandes cidades, – alicerçada pela decisão judicial – e que era justamente mote da organização do evento, convocado por jovens periféricos interessados em ocupar espaços nos quais nunca foram bem-vindos. Essa talvez seja das mais cruéis faces da pseudo-democracia racial brasileira, a que não precisa de barreiras formais, mas que, quando necessário, usa todo o preconceito que ainda resta na nossa sociedade para continuar a segregar, com auxílio e suporte do uso da força policial e do judiciário.

[Ps: Enquanto isso, no shopping Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, policiais militares foram flagrados usando cassetetes contra jovens durante um “rolezinho”, como flagrado pela Folha de São Paulo(clique aqui para acessar a reportagem no site da Folha).]

 


[1] Outro traço mais específico desse episódio é também o racismo, já que está implícito que esse grupo de jovens impedidos de fazer seu “rolezaum” pelos administradores do shopping, além de pertencentes às classes mais baixas, é também de cor negra. Como já vi muitos posts dedicados ao debate sobre o “apartheid à brasileira” em blogs, portais e nas redes sociais, e eles provavelmente dissertam sobre essa problemática de forma muito mais apropriada do que eu faria, optei por chamar a atenção para algumas outras questões relativas ao episódio, ainda que reconhecendo que o debate sobre o racismo é não menos importante.

* Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, seus temas de pesquisa se relacionam ao estudo de comportamento eleitoral, partidos, eleições, política brasileira e classes sociais.

Tags:, , , , ,

Categorias: Sociedade

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: