Rolezinho na nossa identidade brasileira

Casa de negros. Litografia colorida a mão de Johann Moritz Rugendas

Casa de negros. Litografia colorida a mão de Johann Moritz Rugendas

por Renato Nunes Dias*

O Natal de 2013 e as primeiras semanas de 2014 ofereceram importantes exemplos para compreendermos um pouco de nossa formação como povo e sociedade. Os shoppings lotados, como de praxe, para as compras de fim de ano ganharam um novo elemento: o rolezinho, encontro de centenas a milhares de jovens, organizado pelas redes sociais e objeto dos noticiários e, mais recentemente, da Justiça.

No dia 11/01, jovens organizaram mais um encontro no shopping Metrô Itaquera (zona leste de São Paulo) e encontraram portas fechadas e guardadas por seguranças particulares, policiais militares e um oficial de justiça, que notificou dez adolescentes e os intimou a depor. Vanessa Barbara, colunista da Folha, relatou o que viu no estacionamento do shopping: jovens revistados pela PM, mochilas abertas, justificativas dos adolescentes (“Não vou embora não, quero ir ao cinema”) e ameaças de um policial sem tarjeta de identificação (“Vou arrebentar vocês, vou arrebentar” – seguido por um chute em um rapaz).

“Perplexidade” resume bem as percepções confusas sobre os rolezinhos. Perplexidade dos visitantes costumeiros dos shoppings, não habituados a esse “público”; perplexidade de lojistas em pânico que se apressam em fechar as portas; perplexidade de jovens que se veem impedidos de entrar onde tantos e tão frequentemente entram; perplexidade de quem olha a repressão policial amparada na Justiça e não acredita que estamos vivendo o Brasil do pleno século XXI.

Reconheçamos os fatos. É fato que houve furtos e correria em alguns dos rolezinhos marcados desde o fim do ano passado. É fato que os shoppings são espaços privados, acessados pelo público, e é também claro que é de direito do detentor da propriedade privada a limitação, amparada em lei e operada pelo braço forte do Estado, da entrada e circulação de quem quer que seja – desde que isso não incorra em prática discriminatória.

O que mais incomoda, no entanto, é reconhecermos este último fato muito claro: sabemos – eu, você, o policial e o adolescente – que o rolezinho tem mais ou menos uma cor definida e um perfil socioeconômico claro. Sabemos – nós todos – que é por isso que ele incomoda, assim como reconhecemos que o mesmo tipo de aglomeração, por parte de jovens brancos e “bem educados”, não causa a mesma comoção (vide exemplo dos alunos da Faculdade de Economia e Administração da USP que fazem, anualmente, mobilização similar no shopping Eldorado).

Nossa perplexidade maior está aí: o rolezinho nos mostra que vivemos, sim, um mal tão antigo quanto a sociedade que por aqui se constituiu após a chegada dos portugueses. Olhar para a imagem dos jovens barrados pela polícia ou correndo dela – única e exclusivamente por sua cor e perfil socioeconômico – é, também, olhar para um quadro perfeito, borrado e velho, do que temos de mais nosso: nossa incapacidade secular de viver o espaço público, que é, por essência, o espaço de encontro com o outro.

Apesar de o shopping ser espaço privado, ele é, hoje, nas grandes metrópoles, o que mais se aproxima da praça pública: a amplitude dos espaços sempre foi o convite para a agregação das massas. Mas não hoje, não em São Paulo. Vivemos a confusão da esfera privada com a pública: a rua, a praça, o shopping, apesar de serem espaços compartilhados, são também os espaços da reprodução do preconceito.

Paulistanos, temos oferecido exemplo atrás de exemplo de nossa capacidade de levar para fora de casa, para a rua, o que devemos deixar da porta para dentro. No caso da instalação das ciclo-faixas em Moema, vem à mente o esbravejar da dona de uma loja de luxo: “essa faixa é um absurdo! Minhas clientes tem Pajeros, Land Rovers, onde vão parar o carro agora com essa porcaria pintada na rua?”. (Colega, na rua não passam apenas suas clientes de Land Rovers, passamos nós todos, alguns de nós, inclusive, com nossas bicicletas.)

Ou o mais recente caso das faixas exclusivas de ônibus em grandes avenidas (cerca de 300 km instalados na gestão Haddad): “Como pode, essa faixa agora fez do trânsito um caos ainda maior, demoro muito mais preso no carro agora do que antes!”. (Amigo, deixe o seu carro em casa, pegue o metrô ou o ônibus – que, sim, não é rápido nem confortável o suficiente, mas aproveite o seu desconforto para pressionar mais a prefeitura, por maior qualidade no nosso transporte público.)

Os exemplos não vão à toa: a rua é, por excelência, o espaço público e, na falta de praças – reconquistadas de pouco em pouco e com grande esforço (vide o Parque da Augusta ou a Praça Rosa, antiga Roosevelt) – o shopping também.

Dessa forma, os rolezinhos trazem à tona as velhas relações gestadas na casa grande, exposta por Gilberto Freyre: o velho senhor de engenho, absoluto, deitado na rede, a olhar de cima a movimentação da senzala, ordenada, mandada e maltratada pelo feitor. A derrocada da potência do café e da cana e a crescente urbanização do país transformaram a casa grande em sobrado, e a senzala em mucambo. O crescimento econômico do país, a distribuição de renda, as delícias do consumo e nosso espírito discriminador fecham as portas do shopping.

Colocamos na letra da lei, em 1888, o fim da escravidão. Passados 125 anos, não extirpamos, ainda, o tumor da arrogância de uns sobre outros, tão velho quanto o próprio regime escravocrata. Ao batermos as portas do shopping na cara de jovens, em sua maioria negros, oriundos da periferia do centro econômico do país, realizamos o triste temor de Joaquim Nabuco, defensor da causa do abolicionismo: não acorde o escravo que dorme, ele sonha que talvez é livre.

* Mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

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Categorias: Sociedade

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5 Comentários em “Rolezinho na nossa identidade brasileira”

  1. PJ
    22/10 às 17:06 #

    Gosto demais desse texto

  2. 14/01 às 13:56 #

    Parabéns pelo texto. Quem se incomoda com o fato presente e silenciosamente apoia as portas fechadas, simplesmente desconhece a história ou realmente nem está aí para esse adolescentes. Que há medo por parte dos brancos da elite que frequentam o shopping, ok, mas é necessário saber mais sobre nossas relações sociais e enxergar o racismo e a segregação social que movem as classes “a” e “b”.

    • 14/01 às 17:46 #

      Carneiro, obrigado pelas palavras. De fato, somos tributários de uma história que, queiramos ou não, nos envolve em certas práticas, por vezes, discriminatórias. Por isso insisto na análise histórica em meus textos: reconhecê-la é a única maneira de não repeti-la.
      Abraço!

  3. Alexandre
    14/01 às 12:41 #

    Acho pertinente a discussão mas acho que não é só por falta de lazer que esse movimento tem acontecido. Reflete a vontade de chocar, de agredir. Reflete a incompetencia do poder público e a vagabundagem dos jovens em melhorar de vInfelizmente essa fenômeno irá repercutir nas vendas das lojas.

    • 14/01 às 18:08 #

      Alexandre, é importante sublinhar a diferença entre lazer e espaço público. Embora o segundo inclua o primeiro, o primeiro não define o segundo. Busquei citar alguns exemplos no texto justamente sobre nossa dificuldade em lidar com o espaço público, com o que compartilhamos com nossos concidadãos (a rua é exemplo).

      Quanto à competência do “poder público”, acredito que também precisamos considerar quais ações, para falar de São Paulo, a prefeitura tem empreendido: é fato notório que o Orçamento Participativo, os CEUs e outras tentativas direcionadas à coisa pública são rebentos históricos das gestões Erundina, Marta e agora Haddad.E, embora pouco tenha sido noticiado, é fato, por exemplo, que Haddad, amparado pelo OAB, abriu os canais para ouvir esses jovens.

      Em relação à “vagabundagem” e queda nas vendas das lojas, são temas de difícil discussão, por serem apresentados com grande carga de preconceito e pendores ideológicos inflamados. Agora, supor que a ida dos jovens ao shopping é sinônimo de vagabundagem abre portas para questionarmos, então, o que nós, os brancos bem educados, fazemos quando vamos ao shopping: trabalho? Quanto às quedas nas vendas, não sei bem, então como encarar o fato de que os shoppings tiveram mais final de ano de crescimento. De qualquer maneira, acho necessário buscarmos a discussão do que é público: tomar por norte o faturamento de lojas em shoppings não me parece proveitoso para este fim.

      Obrigado por seus comentários e por sua atenção com os textos!
      Abraço

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