A invenção do Natal: entre Jesus e o Papai Noel

por Veridiana Domingos* 

"A magia está em você"

“A magia está em você”

Estamos perto do sempre esperado e nunca esquecido Natal. A cidade fica um caos, pessoas correndo de um lado para o outro, festas de confraternização, presentes e muita comida. Para quê tudo isso mesmo? Claro, não é para menos, é a comemoração do nascimento de Jesus Cristo e um dos maiores países católicos do mundo. Mas será que sempre foi assim?

Um velho gordinho, das barbas <chrome_find class=”find_in_page findysel”>compridas e toda sua trupe produtora de presentes começaram a roubar a cena do Natal, assim que o capitalismo passou a se consolidar pelo mundo. A Igreja Católica, como uma das únicas (senão a única) instituições que permaneceu influente e sólida durante 2000 anos não podia deixar barato. Seria Papai Noel um herege? Talvez. A Igreja Católica não o poupou de uma cena que, embora simbólica, em muito lembra os tribunais da inquisição: em 24 de dezembro de 1951, em Dijon, na França, um Papai Noel é queimado em uma fogueira nas grades da Catedral da cidade[1]. Queimado publicamente. Queimado pelo clero com a ajuda de 250 crianças. Condenado como herege. Há 52 anos atrás. Para vermos que a lógica inquisitorial ainda, há pouco tempo, permanecia no seio da Igreja Católica. É claro que a Igreja não poderia deixar que a memória e as comemorações relativas ao nascimento de Jesus fossem invadidas por outros símbolos e rituais. Afinal, haveria festividade mais fundante e tradicional para os cristãos do que o Natal?

É interessante notar como a Igreja, normalmente, coloca algumas tradições como atemporais, sendo que na verdade foram tão construídas, no interior da instituição, quanto a lenda do Papai Noel. De acordo com historiadores, o nascimento de Jesus Cristo se deu em uma data não conhecida, mas bastante longínqua do dia 25 de dezembro. Com seu nascimento em data desconhecida, não se comemorava o Natal até o século IV d.C. O Papa Júlio I decidiu por fixar 25 de dezembro como a data oficial do nascimento de Jesus.  A escolha pela data não foi aleatória e muito menos ingênua; foi, antes de tudo, um ato político a fim de se sobrepor às festas pagãs da época.  25 de dezembro era a data em que se comemorava a festa a Saturnália, um festival romano em homenagem ao deus Saturno. Além disso, era a data que coincidia com as festas germânicas e célticas do Sol Invicto (que corresponde ao solstício de inverno). A Igreja viu nesta data uma oportunidade de solapar as comemorações pagãs e impor sua memória e tradição. Mesmo com a aparente solidez festiva que a Igreja Católica empenhou no 25 de dezembro, a importância do ritual natalino ora teve apogeus e ora declínios.

O fato é que a forma americanizada do Natal, com casas e árvores ornadas com luzinhas, enfeites e Papais Noeis, deu força e peso às festas natalinas. Contraditoriamente, a Igreja deveria reconhecer que a figura gordinha e barbuda que foi queimada em praça pública reforça, todos os anos, o Natal como uma das maiores festas do mundo ocidental.

Se o significado e origem das comemorações referentes aos dias 24 e 25 de dezembro se relacionam às festas pagãs antigas, à chegada do Papai Noel ou ao nascimento de Cristo, pouco importa. É fato, pelo menos, que todo o mundo ocidental (com a graça do Papai Noel, grande parte do oriente está livre destas comemorações) recai em um consumismo despropositado e em comilanças homéricas. No final das contas, as comemorações natalinas, como todas as outras, para além de seu significado e simbologia, foram engolidas pelo Senhor Capitalismo Noel.

Bom natal!

— 

* Socióloga formada pela Unviersidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de sociologia, trabalha com Educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Violência e Memória.

Leia mais textos da autora, clicando aqui.


[1] Essa cena é retomada por Claude Lévi-Strauss no pequeno livro O Suplício do Papai Noel, da Ed. Cosac –Naify.

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Categorias: Sociedade

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um comentário em “A invenção do Natal: entre Jesus e o Papai Noel”

  1. Yara Bonomo
    24/12 às 00:28 #

    Interesses econômicos à parte, feliz Natal! Yara

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