Pode Guardar as Panelas

Pode Guardar as Panelas. De Caetano Patta.

Pode Guardar as Panelas. De Caetano Patta.

“Você sabe que a maré
Não está moleza não
E quem não fica dormindo de touca
Já sabe da situação
Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu”

Pode guardar as panelas, Paulinho da Viola.

Talvez possamos dizer que São Paulo é a cidade brasileira que vive as consequências mais lineares dos protestos que sacudiram o Brasil em junho de 2013. A grande imprensa – cheia de interesses escamoteados e seletividade em suas supostas convicções – segue tentando fazer desse momento político uma grande onda de indignação contra a corrupção. A corrupção existe e de fato não agrada os brasileiros. Porém, é grande e heterogêneo o número de vozes – inclusive algumas mais honestas intelectualmente no interior dessas redações – que admitem que a grande marca dos protestos de junho foi o reclame de parcela majoritária da população por maior e melhor investimento por parte do Estado em âmbitos da vida cotidiana que andam flertando com o caos: saúde, educação, segurança e transporte.

Ocorreu que parcela robusta da população quis se fazer escutar em ano ímpar. Sim, os protestos mostraram que a população se sente de fato desrespeitada com os casos de corrupção. Mostraram também que existem setores buscando reformar os mecanismos de nossa democracia. Porém, nenhum desses traços é mais forte do que a sinalização por mais e melhores serviços públicos.

Se a população consegue se fazer ouvir ou coloca o poder público contra a parede e este então se dispõe a atender as demandas apresentadas, temos as portas abertas para um novo patamar, o da solução prática dos problemas. Aqui moram grandes dificuldades. Transpor anseios de cartazes para a realidade envolve confrontar a realidade e seus vícios, romper a inércia de alguns elementos e desviar o caminho de outros. Envolve tirar dinheiro de um lugar e colocar em outro.

São Paulo, por uma série de motivos, parece ter alcançado esse outro patamar. Dentro eles estão sem dúvida muitas das particularidades da maior cidade do país. É importante, no entanto, reconhecer o papel da prefeitura paulistana nesse processo. Fernando Haddad se elegeu falando no “novo” e defendendo algumas ideias criativas para enfrentar problemas crônicos da cidade. Embora campanha seja diferente de mandato, é possível identificar no executivo municipal, não sem contradições e limites, caminhos diferentes daqueles mais convencionais e tendências à inversão de prioridades em diversas áreas. A importância de reconhecer a postura da prefeitura reside naquilo que foi sinalizado pelos protestos: mais Estado. Portanto, para dar consequência àquilo que foi reclamado e da forma como o foi, é fundamental o Estado se posicionar de modo a ser o espaço da solução dos problemas levantados. Isso não necessariamente acontece. Outras cidades permanecem num estado de insatisfação difusa, sem discussão prática dos problemas. Mas na capital paulista tem acontecido em algumas ocasiões.

Nestes meses que sucedem os protestos, São Paulo vive um embate crescente em torno de medidas que tem como marca maior protagonismo do Estado. Interesses contraditórios ficam expostos e os ânimos acirrados. É o caso das faixas exclusivas de ônibus e do debate público suscitado, em que índices superiores a 90% de aprovação à medida dividem espaço com contrariadas capas de revistas semanais, indignados editoriais de grandes jornais e movimentação dos taxistas. A contradição não mora apenas no âmbito das opiniões, antes disso ela é concreta: por um lado a cidade está de fato parada, por outro, as viagens de quem usa o transporte público foram reduzidas à metade do tempo. A questão que fica, portanto, é: quem está parado e quem chega mais cedo em casa.

Outra medida anunciada pela prefeitura que segue na mesma linha é o reajuste progressivo do IPTU. Nesse caso, a ideia de arrecadar mais de quem tem mais e menos de quem tem menos – usando a região da cidade em que o contribuinte reside como critério – esbarrou em interesses difíceis de dobrar. O executivo municipal foi parado pela grande imprensa, pela justiça e por um candidato a governador que nas horas vagas é presidente da mais importante federação industrial do país.

Esses embates em São Paulo nos colocam algumas questões necessárias sobre o que de fato queremos e podemos esperar do que começou em 2013. Do ponto de vista da solução prática dos problemas, fica claro que realizar as mudanças reivindicadas envolve romper com costumes arraigados, o que muitas vezes gera desconforto, além de resultados que só podem ser sentidos no longo prazo – assustador para políticos que tem índices de aprovação a zelar. O artigo “Coxinha lembra Erundina”, de Bárbara Gancia, ilustra bem a questão. Porém, como nenhuma solução técnica ou prática está isenta de interesses, a situação de São Paulo anuncia embates e questionamentos importantes para todo o país nesse próximo período, referentes a como se dará na política e na sociedade a disputa em torno dos interesses que precisam ser revirados caso se pretenda verdadeiramente alcançar parte das reivindicações expressas nos cartazes de junho. Quem joga? Em que time? O jogo termina no campo ou no tribunal?

No caso do IPTU, para defender a atual política tributária, tivemos uma configuração tão cheia de significado quanto a proposta em questão. O judiciário federal foi o convidado de gala de uma campanha movida pela FIESP e pela grande imprensa para derrubar uma medida proposta pelo executivo e aprovada pela câmara de vereadores – e derrubou. O STF aparece mais uma vez no centro da política. Contudo, dessa vez não se tratava de um suposto crime, mas sim de uma decisão política cuja responsabilidade deveria ser dos que foram eleitos. A oposição preferiu atuar por fora dos espaços propriamente democráticos da política, fazendo coro com a campanha em andamento, o que no mínimo deve ser refletido. Como cascata, a figura cada vez mais onipresente de Joaquim Barbosa desce do plano federal e interfere numa disputa política municipal que tem cheiro de 2014. Ao mesmo tempo, a questão do IPTU coloca em evidencia a participação ativa da imprensa na definição da política. Se no caso das faixas de ônibus os sucessivos altos índices de aprovação nas pesquisas de opinião deram condições da prefeitura ir até o fim, contrariando os interesses que a imprensa defendeu, no caso do IPTU a prefeitura sofreu nocaute no primeiro round. Os jornais e a televisão conseguiram emplacar o “reajuste progressivo” como “aumento acima da inflação”. Já durante os últimos instantes da briga, Haddad admitia que para fazer tais mudanças é necessário uma política de comunicação da prefeitura para romper o cerco dos veículos dominantes.

São Paulo não será palco de disputas apenas na abertura da copa do mundo de futebol e no grande prêmio de Interlagos. Os dilemas e o acirramento que a capital paulista vive são aqueles que qualquer cidade que tentar responder às reivindicações de junho de 2013 viverá. No mais recente episódio, ficou claro que é preciso mais do que a boa vontade de um prefeito e uma maioria pontual na câmara para mexer na lógica viciosa da desigualdade.

 

Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador. Reúne alguns trabalhos no blog ociosobretela.tumblr.com

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