“Segregação no Brasil? De jeito nenhum!” Levamos o legado de Mandela adiante.

O recente falecimento do líder Mandela fez brotar, nas mídias sociais, uma série de frases e louvores a esse líder sulafricano e a seu legado deixado ao mundo todo. Quando o Apartheid foi oficializado em 1948, uma série de medidas que nos horrorizariam hoje em dia foram implantadas: os casamentos entre brancos e negros foram proibidos; os indivíduos passaram a ser classificados por sua cor a fim de separá-los mais facilmente por bairros; foi implantado o Bantu Education Act e o Promotion of Black Self-government Act, em 1959 que pregavam um “desenvolvimento segregado” que gerou a criação de regiões da cidade que eram exclusivas para negros, chamados bantustões; nas escolas só se aprendia sobre a cultura branca; proibiu-se a circulação de negros em determinadas áreas das cidades; as universidades existentes ficaram proibidas de matricular alunos negros. A luta de Mandela e o reconhecimento que teve ao se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul em 1991, acabando assim como Apartheid, marcou não apenas o país da ponta do continente africano, mas deixou legados, exemplos e ensinamentos para o mundo todo.

Hoje, ensina-se na escola sobre o Apartheid sulafricano como se fosse algo distante. Eu mesma me lembro de ter ouvido isso pela primeira vez e me assustado com tamanha barbárie. Como é possível algo assim ter acontecimento em uma época tão recente? A professora de história, frequentemente, fazia comparações com o Brasil: “Veja, o Brasil aboliu a escravidão e desde então convivemos sem Apartheid, somos miscigenados e além de tudo temos direitos iguais”. Demorei a olhar para os lados e perceber que nas carteiras ao lado não havia negros. Nenhum. Mais tarde, já na faculdade pública, encontrei um ou dois negros como colegas de classe.

É claro que dizer que estamos em uma situação de Apartheid é ingênuo e no mínimo anacrônico. Desde antes da abolição, a relação entre negros e brancos, no Brasil, se deu de maneira muito distinta da África do Sul. Na casa-grande, no interior da família patriarcal, havia uma “zona de amortecimento” entre brancos e negros: desenvolviam-se relações de afeto e intimidade entre brancos e negros (“relações de doçura”, dizia Gilberto Freyre em Casa-Grande Senzala[1]), que se expressavam nas figuras das “amas de criar”, “mucamas” e “irmãos de criação dos meninos brancos”. Estes negros eram como “parentes pobres nas famílias europeias.” Como consequência, essas relações atenuaram, ou pelo menos, jogavam um véu sobre os males do sistema. Com a abolição da escravatura, jogaram-se os negros na sociedade sem aparente integração, mas também sem aparente exclusão. De acordo com Florestan Fernandes em A Integração do Nedro na Sociedade de Classes[2], a sociedade brasileira repudiava a alternativa segregacionista, de ordem birracial, que já era presente nos Estados Unidos e na África do Sul[3]. Buscava-se uma afirmação e uma consciência nacional do negro. Paralelamente a estas demandas que não foram sendo atendidas, o país começa a desenvolver a noção de preconceito de cor, sendo a cor uma referência para manter o negro em um estrato social inferior, que, silenciosamente, não tinha acesso aos padrões de vida e garantias sociais dos outros grupos étnico-raciais. Mesmo assim, o que marcou a tentativa de integração do negro no Brasil, definitivamente, não foi uma política segregacionista, mas sim uma sociedade de classes que, em tese, tinha um sistema “aberto” que permitia a mobilidade vertical de todos.

Formalmente foi essa nossa estrutura política para integração dos negros e jamais podemos falar em Apartheid aqui. Como contei, eu me assustava com os exemplos da África do Sul, a professora de História colocava a realidade africana como distante de nós. Talvez esse silêncio, essa política velada tenha feito com que eu tivesse demorado tantos anos para olhar para os lados. Nossa realidade, enfim, está muito mais próxima do Apartheid do que imaginamos. Para poder tocar nos temas da última semana, cito aqui três notícias que nos aproximam, muito mais do que afastam, das características do Apartheid que citei acima.

Lucas Neiva de Oliveira, menino de oito anos, de cabelo black power  estiloso e bonitão, tão comum aos cabelos afrodescendentes que representam 51% do país, foi proibido de se rematricular na escola particular Cidade Jardim Cumbica,  em Guarulhos. Após terem pedido para que cortassem seu cabelo, não permitiram que ele permanece na escola no ano que vem. Discriminaram-no, fizeram-no negar sua identidade negra e o segregaram:

Bantu Education Act, 1953, África do Sul: provisão de instalações educacionais racialmente separadas.

No sábado passado, várias viaturas da Polícia Militar, Rota e Batalhão de Missões Especiais fizeram um cerco ao Shopping Vitória, na capital capixaba, para “proteger” lojistas de transeuntes negros que adentram o shopping para se proteger da violência da PM, que horas antes, havia invadido um baile funk nas redondezas. Todos os negros foram colocados em filas, com as mãos para trás e revistados pela polícia. Enquanto isso, a maioria branca aplaudia e gritava enaltecendo ação da polícia. Segregaram-nos, discriminaram-nos e impediram-nos de frequentar um local público:

 Group Areas Act, 1950, África do Sul: visava a segregação urbana espacial de negros e brancos, sendo que em algumas áreas públicas era sinalizada a proibição da permanência de negros

Às vésperas do sorteio para os jogos da Copa do Mundo, os atores Lázaro Ramos (que é negro) e Camila Pitanga (que tem descendência negra), que representariam o Brasil no evento, foram substituídos pelo casal branco (branquíssimos e loiros) Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert..

Eleição de Nelson Mandela, 1991, África do Sul: o primeiro representante negro é oficialmente eleito em um país de maioria negra.

É… de fato não temos segregação racial por aqui.

 Veridiana Domingos é socióloga, formada pela Universidade de São Paulo. Atualmente é  mestranda pelo Departamento de Sociologia da USP, trabalha com educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Violência e Memória.


[1] Para saber mais sobre as relações entre brancos e negros no Brasil Colônia e Brasil Império, ver em Casa Grande Senzala, de Gilberto Freyre, Ed. Graal.

[2] Florestan Fernandes discorre sobre os processos psicossocias que permearam a integração do negro na sociedade brasileira pós abolição. O argumento acima se refere ao seguno volume da obra A integração do negro na sociedade de classes da Ed. Globo.

[3] Embora o Apartheid tenha sido formalziado em 1948, a África do Sul, ainda colônia da Holanda já sofria com uma base ideological segregacionista desde, pelo menos, o século XIX.

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Categorias: Sociedade

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um comentário em ““Segregação no Brasil? De jeito nenhum!” Levamos o legado de Mandela adiante.”

  1. Yara Bonomo
    17/12 às 18:54 #

    Um bom retrato da sociedade brasileira.
    Yara

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