Mandela continua vivo, até segunda ordem

Mandela continua vivo, até segunda ordem. De Caetano Patta

Mandela continua vivo, até segunda ordem. De Caetano Patta

Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa for mais importante que o brilho dos seus olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada. E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal

Discurso de Hailé Selassié, Imperador da Etiópia, na Liga das Nações em 1936.

Nelson Mandela nasceu em 1918 e fez muito na vida. Nelson Mandela fez guerra e fez paz. Se vai como expressão maior de uma geração cuja palavra de ordem foi “soberania”, ao lado de Patrice Lumumba, Agostinho Neto, Gamal Abdel Nasser e Fidel Castro. Essas companhias, especialmente a última, são inconvenientes para muitos que prestam suas homenagens a Mandela nesses dias. Mas a unanimidade de Mandela se sustenta principalmente em sua luta incansável contra o regime do Apartheid, segregação oficial que negava aos negros direitos e humanidade na Africa do Sul. Foi lutando contra o Apartheid que Mandela ficou quase 30 anos preso. Nelson Mandela foi apontado como terrorista pela primeira ministra britânica Thatcher e ficou na lista de terroristas procurados pelos Estados Unidos até 2008. Mandela foi presidente de seu país e defendeu um modelo multiétnico, de integração das diferenças, o que explica um pouco mais de sua unanimidade mundo a fora. Nelson Mandela foi um ser humano, portanto, com suas contradições. Mas que ser humano, devemos dizer.
Depois de passar por uma vida inteira de luta – de guerrilhas, cadeias e até no posto máximo da política de seu país -, Nelson Mandela virou o rosto da luta contra uma opressão que continua a envergonhar o mundo. Nelson Mandela nasceu em 1918 e continua vivo até segunda ordem.

Abaixo, alguns dos motivos que fazem Nelson Mandela continuar vivo pelas ruas do Brasil.

– Dos 52.198 homicídios ocorridos no Brasil em 2011, 18.387 tiveram como vítimas homens negros entre 15 e 29 anos, ou seja, 35,2% do total.

– Em Campinas-SP, houve ordem de serviço da 2ª Companhia de Polícia Militar para que policiais abordassem “especialmente indivíduos de cor parda e negra, com idade entre 18 e 25 anos em grupos de três a cinco indivíduos”.

– Uma pesquisa de 2012 mostrou que, para 55,8% da população, a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte violenta de um jovem branco.

– Naquela que é tida como a maior universidade do país, a USP, as três carreiras mais concorridas do vestibular 2013 (Medicina, Publicidade e Propaganda e Engenharia em São Carlos) não tiveram alunos pretos matriculados no 1° ano.

– A categoria dos médicos e outros setores da sociedade brasileira resistiram de forma raivosa à vinda de colegas estrangeiros para atuar no Brasil, quando da instituição do programa “Mais Médicos”. Dentre as manifestações contrárias, uma jornalista postou nas redes sociais: “essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo?”. Em outro episódio, um grupo de 50 médicos brasileiros hostilizaram os cubanos, os chamando de “escravos”.

– Pesquisa do Dieese aponta a disparidade de salários entre negros e não negros no Brasil: trabalhadores negros chegam a receber até 57,3% do valor pago pelo trabalho de não negros.

– Negras são vítimas de mais de 60% dos assassinatos de mulheres no país.

– Enquanto no Brasil a proporção de negros na população ultrapassa os 50%, entre pretos e pardos, na Câmara dos Deputados a proporção fica em 8,9%, com 46 dos 513 representantes do povo.

– Um colégio em Guarulhos, na Grande São Paulo, pediu neste ano que um de seus alunos cortasse o cabelo crespo. A mãe não cortou, e o filho não conseguiu fazer a rematrícula na escola Cidade Jardim Cumbica.

http://noticias.terra.com.br/educacao/jornalista-se-arrepende-de-comparar-medicas-cubanas-a-domesticas,3f1181c0881c0410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/07/mais-de-um-terco-das-vitimas-de-homicidios-em-2011-no-brasil-foram-de-homens

http://vestibular.uol.com.br/noticias/redacao/2013/05/03/usp-nao-tem-calouro-preto-nas-tres-carreiras-mais-concorridas.htm

http://economia.terra.com.br/trabalhadores-negros-ganham-ate-57-menos-que-nao-negros-diz-dieese,d43971265c252410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2013/11/21/negras-sao-as-vitimas-de-mais-de-60-dos-assassinatos-de-mulheres-no-pais

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-01-19/representacao-no-congresso-nao-corresponde-proporcao-de-negros-na-populacao

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/12/colegio-em-guarulhos-obriga-menino-cortar-o-cabelo-crespo.html

 

Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador. Reúne alguns trabalhos no blog ociosobretela.tumblr.com

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