Você não mudou nada

Você não mudou nada

Você não mudou nada. Por Caetano Patta

Em seu último artigo para a Carta Capital, “As duas Mortes de Jango”, Vladimir Safatle destaca o esforço dos militares em desconstruir a apoio popular, as virtudes e acertos do ex-presidente João Goulart. Com suas palavras, “para os militares, não bastava alijá-lo do poder. Era necessário criar a imagem de um presidente fraco, impopular e golpista, financiado pelo ouro de moscou”. Os dois últimos episódios do processo de revisão do entendimento oficial sobre o que foi o regime militar abrem espaço para um acerto de contas entre a sociedade brasileira e seu presidente deposto, rejeitando a versão deixada pelos generais. A exumação do corpo de Jango aponta para a revisão da versão de morte natural e investigação dos indícios de assassinato. A anulação da sessão do congresso que o cassou permite, após quase 50 anos, chamarmos Ditadura e ditadores desta forma, oficialmente. Essas medidas trazem o personagem João Goulart de volta à cena.

Temos no governo Dilma Rousseff o momento de maiores conquistas na luta por memória, verdade e justiça. Limites, sim. Avanços, sem dúvida. Vale ressaltar que o governo pode ter seus méritos, mas a responsabilidade por essas conquistas vem principalmente das décadas de luta de organizações da sociedade e dos familiares de vítimas. A presidenta faz questão de qualificar o processo como política de Estado, o que é acertado e confere maior peso e consequência a cada ação. Porém, a investigação do passado não é politicamente neutra no presente.

Jango tinha programa político, aliados, adversários e contradições. Trazê-lo ao presente implica em trazer tudo isso junto. Do alto de sua ignorância, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), na tentativa de tumultuar a sessão que anulou a cassação, diz uma verdade: participaram do golpe a oposição, parte da base de Jango e a imprensa, entre outros. Cada um destes setores tinha interesses no golpe e a investigação histórica nos permite identificá-los – e muitos continuam no jogo. Depois de deposto, Jango teve sua morte simbólica, usando a expressão de Safatle, levada a cabo pelos militares com grande apoio da imprensa. Mas ela não foi apenas a pá de cal. Foi a serra. Durante todo o período que antecedeu o golpe, os grandes jornais fizeram o que fazem até hoje: defenderam seus interesses em uníssono, sem escrúpulos nem responsabilidade para com a ordem democrática.

Não se pode prosseguir sem uma ressalva. A sociedade brasileira mudou e é imprudente forçar paralelos entre o passado e o presente. A história não volta sempre ao mesmo ponto, não repete sempre os mesmos personagens e não está prestes a se repetir. Não se pode falar com mínima seriedade na reedição dos acontecimentos de 64 no atual momento. Ao menos, não com base nos fatos.

O Brasil mudou muito. Porém, algo continua igual: a imprensa, seus donos, seus discursos, preconceitos e sua falta de compromisso com a democracia. É necessário trazer junto com Jango, as manchetes da época, as estratégias de desestabilização, o terrorismo midiático. Não se trata de posturas antidemocráticas desprovidas de conteúdo, e sim de instrumentos no combate sistemático às políticas de distribuição de renda e redução da desigualdade, aumento da remuneração do trabalho, garantia de serviços públicos à maiores parcelas da população e autonomia nas relações internacionais. Nas disputas ideológicas, nas disputas de guerra e paz e, principalmente, no conflito distributivo, a concentrada imprensa brasileira tem lado e não tem escrúpulos; desde sempre e até hoje, infelizmente, podemos dizer. Um dos desafios do Brasil no acerto de contas com sua história é explicitar o papel desempenhado pela grande imprensa no regime militar, seu coro, sua omissão e seus motivos. Um dos desafios do Brasil na construção de sua democracia é admitir que a imprensa continua a mesma.

 

Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador. Reúne alguns trabalhos no blog ociosobretela.tumblr.com

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