Ensaios sobre a morte no teatro: sensibilidade e poesia na Bela Vista

Há exatos dois anos, assisti, no Teatro Coletivo, à peça Relicário Inventado, parte da trilogia Ensaios sobre a Morte, do diretor e dramaturgo Bernardo Machado Fonseca (que em Epitáfio também atua brilhantemente) que tratava do meu tema predileto: a memória. Ali, o menino Ícaro transitava pelas cenas tentando reconstruir (ou construir) memórias da namorada e da mãe, que já havia morrido. Na semana passada, fui surpreendida com Epitáfio (a segunda parte da trilogia), peça que arrastou para si o tema da morte, mas agora contada por meio de novas histórias e personagens.

O espaço Pinho de Riga, onde a peça é encenada, é um local livre e, por isso, as cadeiras podem ser dispostas de acordo com a peça que receber. Assim como Relicário Inventado, Epitáfio coloca o público ao seu redor, sendo que cada um dos espectadores tem uma visão e uma percepção muito distinta do outro. Por isso, cada vez que se assiste à peça de um determinado ângulo, interage-se com um ou outro ator.

O começo da peça parece ininteligível. Falas cortadas e os mesmos atores fazendo personagens em diferentes épocas da vida. Aos poucos, o espectador mergulha na história e consegue, a partir do cenário simples, imaginar situações e paisagens. Os cinco atores não saem de cena um só minuto. Todos ali em um pequeno espaço recheado de móveis e objetos antigos. Quase não há mudança de figurino e nem de cenário e tudo isso contribui para que estejamos focados no texto e na atuação impecáveis de cada um deles. O elemento que coloca dinamicidade na peça é a alternância de discursos que são perfeitamente combinados: ora tem-se discurso direto em que os personagens ganham voz e vida; ora tem-se o discurso indireto em que um dos personagens narra a história, reproduzindo falas e reações de outras personagens; e ora o discurso indireto livre, em que o texto narrado por um dos atores abre espaço para que a personagem da qual se fala ganhe voz.

A narrativa se desenrola no interior de uma família, em que Dédalo (avô), Nora (filha), Irina (neta), Miguel (amigo de Irina) e Sebastião (agregado da família) lidaram ou lidarão com a morte de alguma maneira. Dédalo é um velho ranzinza que foi engolido pela burocratização da vida moderna. Imerso em seu trabalho de arquivista, não conseguiu se doar nem à esposa, que morre jovem, e nem à filha Nora. Querendo ou não, Nora muito tem de seu pai: ela também vive imersa em seu trabalho de professora e mantém sua postura rígida perante a sua carismática filha Irina, que está sempre correndo de um lado para o outro, vivendo a vida intensamente ao lado de Miguel e Sebastião. Com o passar dos anos, o amor infantojuvenil de Irina, Miguel e Sebastião se desabrocha. Irina se apaixona por Miguel. Sebastião se apaixona por Miguel. Miguel se apaixona por Irina. Sebastião se apaixona por Irina. Miguel se apaixona por Sebastião. Irina se casa com Sebastião.

Quem assistiu à primeira peça da trilogia retoma, mentalmente, às cenas de Relicário Inventado. Percebe-se, ao desenrolar da história, que o tema da memória volta a aparecer nesta segunda peça e, de alguma, forma perpassa toda sua narrativa. Em uma das partes mais lindas, não há atores em cena, ouve-se apenas um gravador antigo ligado emanando a voz de Dédalo, que, incessantemente, buscou objetificar suas memórias da maneira mais viva possível. Ele as deixa gravadas para além de sua existência.

Diálogos líricos e jogos de luzes arrancam algumas lágrimas dos espectadores, enquanto o tema da morte, muito sutilmente, vai inundando a peça. Dédalo perde a esposa que só se faz notável ao não existir mais. É sua lembrança que marca sua existência. Mais tarde, já na velhice, o próprio Dédalo lida com a eminência de sua própria morte, mas antes de sua morte física, lida com a morte de seu ser racional. Nora lida com a morte de suas duas mães: a mãe biológica que escolheu morrer, ou melhor não existir para Nora e a mãe adotiva que faleceu quando ela ainda era criança. Irina lida com a morte pelo seu oposto: pela impossibilidade da vida que lhe acomete quando deseja ter um filho. Já Miguel faceia a morte de fato, ainda muito jovem.

O fato é que a peça nos põe diante da morte e da reflexão de nossa própria morte. Comumente, experenciamos a morte do outro, sempre o fazemos de maneira impessoal. Ela acontece, mas nunca é conosco. O filósofo alemão Martin Heidegger colocou a morte como central na sua obra, ao apontar que o ser do homem é um ser orientado para a morte. Sendo que cada um de nós vai lidar com maneiras diferentes diante deste fato: “morre-se porque com isso qualquer outro e o próprio impessoal podem dizer com convicção, mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém”.

Assim, viver de maneira autêntica é viver tendo a consciência de que somos finitos e um dia vamos morrer. Quem vive de maneira autêntica encara a morte como possibilidade de nossa “não existência” e não como faz de maneira impessoal que diz “morre-se”, tentando assim jogar um véu sobre a questão. Viver autenticamente é reconhecer-se como um ser voltado para a morte e a partir disso, diante das possibilidades para as quais ela nos abre, projetar e construir a nossa vida a partir dessa constatação. Por isso que a morte deve ser vivida como experiência antecipadora, no próprio dia a dia,  de nossa existência.

Veridiana Domingos é socióloga formada pela Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda do departamento de Sociologia da USP, trabalha com educação e desenvolve pesquisa nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

* agradeço à Marina de Angelis por meio de quem tive contato com o pensamento heideggeriano.

Dados sobre a peça
Texto e Direção: Bernardo Fonseca Machado
Assistência de Direção: Adriano Merlini
Atores: Ana Junqueira, Bianca Sgai Franco, Homero Ligere, Lui Seixas e Rodrigo de Castro
Preparação Corporal: Vitória Cohn
Composição Musical: Gustavo Vellutini
Músicos: Gustavo Vellutini e Fernando Growald
Cenografia: Julia Armentano e Miguel Aflalo
Figurino: Paulo Castello
Iluminação: Lui Seixas
Produção: Paloma Rocha
Exibição: de 31 de outubro até 13 de dezembro, às quintas, às 21h, e às Sextas às 21h30.
Espaço Cultural Pinho de Riga
Rua Conselheiro Ramalho, 599 – Bela Vista – SP
Ingressos: R$15,00 e R$30,00

Site: http://www.ciaemversao.com.br

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Categorias: Cultura

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um comentário em “Ensaios sobre a morte no teatro: sensibilidade e poesia na Bela Vista”

  1. Anônimo
    17/11 às 19:22 #

    Excelente inciativa a de reservar um espaço no Gusmão para atividades culturais. Parabéns pela resenha e pela indicação. Yara

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