Jango: o retorno à história

No dia em que se comemora a Proclamação da República, temos de concordar com João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart: “a importância de rever Jango é a importância de rever o Brasil”. Seu depoimento foi dado a jornalistas ontem, na base aérea de Brasília, que recebeu os restos mortais do ex-presidente deposto pelo golpe civil-militar de 1964 e morto em 1976, no exílio. Foram finalmente prestadas, após 37 anos, as honras de chefe de Estado, à época negadas pelo governo do general Ernesto Geisel.

A exumação e transporte dos despojos de Jango foram coordenados pela Comissão Nacional da Verdade e pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, que, em parceria com o Ministério Público, buscam esclarecer as causas da morte do ex-presidente, após denúncias de que Jango poderia ter sido envenenado, e não tido um ataque cardíaco como consta na certidão de óbito.

Para além do direito indiscutível de uma família ter esclarecidas as causas da morte de um ente querido e a um presidente serem feitas as honrarias dignas do cargo, chama atenção o fato de que pouco ou nada se falou na grande mídia sobre o ocorrido. As coberturas dos grandes jornais navegaram entre o silêncio e a mera descrição da cerimônia ocorrida em Brasília. Quando muito, falou-se na investigação da suspeita do envenenamento, sem qualquer contextualização histórica.

Esse é um sintoma muito sério e claro do funcionamento da mídia e do que convencionamos nomear “opinião pública”. Em tempos de eleição, a grita midiática se desenrola sobre as denúncias de escândalos de corrupção cuja fatura, no mais das vezes, cai no colo do governo petista – nacional, com o “mensalão”; municipal, com a torpe tentativa de ligar o prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad ao desvio de verbas (que soma 500 milhões de reais), herdado da gestão do peessedista Kassab.

As “jornadas de Junho” encheram as ruas, páginas e telas com as palavras de ordem contra esse mal geral e generalista em que transformamos o difícil tema da corrupção. Não foram poucas as vozes que, no calor das ruas, defenderam uma intervenção militar a exemplo de 1964, contra os desmandos da gestão petista.

Mídia e opinião pública são os elos que relacionam o golpe de 64 ao retorno de Jango – quase 50 anos depois – num caixão, a Brasília. Às vésperas do golpe, editoriais gritavam contra os dois males do momento: comunismo e corrupção. Nas ruas, a ‘marcha da família com deus pela liberdade’ fazia as vezes da mobilização popular elitizada e educada contra os grandes riscos que Jango representava.

Meio século depois, entre os radicais saudosos de um governo autoritário – fantasiado como limpo e técnico – e os monocórdicos detratores da corrupção de toda hora dos “petralhas”, grandes revistas e jornais esquecem e fazem esquecer a história. Silenciam sobre o real papel que, por exemplo, Julio de Mesquita Filho, do Estadão, teve no grupo de empresários paulistas e cariocas que conspirou contra Jango. Silenciam sobre a Operação Condor, concertada entre sistemas de informações e anti-subversão dos governos autoritários na América do Sul, sob auspícios da CIA. Silenciam sobre as reformas de base que Jango propusera, que feriam tantos e tão poderosos interesses. Silenciam.

Silenciam e ignoram a história de um país e de pessoas que, jogadas no turbilhão dos acontecimentos da época, deixaram de viver seu cotidiano ao lado de amigos e familiares: pequenas contas no rosário obscuro da nossa história.

Foi o caso de João Goulart, exilado do país que presidiu, morto e impossibilitado de ter um cortejo popular ou as honras devidas. Mas foi também o caso de centenas de mortos, desaparecidos e “acabados” pelo regime.

Foi o caso de Gilse Cosenza:

Fui torturada das sete da noite até o amanhecer, sem parar. Pau de arara até não conseguir respirar, choque elétrico, espancamento, manuseio sexual. Eles tinham um cassetete cheio de pontinhos que usavam para espancar os pés e as nádegas enquanto a gente estava naquela posição, de cabeça para baixo. Quando eu já estava muito arrebentada, um torturador me tirou do pau de arara. Eu não me aguentava em pé e caí no chão. Nesse momento, nessa situação, eu fui estuprada. Eu estava um trapo. Não parava em pé, e fui estuprada assim pelo sargento Leo, da Polícia Militar. De madrugada, eu percebi que o sol estava nascendo e pensei: se eu aguentar até o sol nascer, vão começar a passar carros e vai ser a minha salvação. E realmente aconteceu isso. Voltei para a solitária muito machucada. A carcereira viu que eu estava muito mal e chamou a médica da penitenciária. Eu nunca mais vou esquecer que, na hora que a médica me viu jogada lá, ela disse: ‘Poxa, menina, não podia ter inventado isso outro dia, não? Hoje é domingo e eu estava de saída com meus filhos para o sítio’. Depois disso, eles passavam noites inteiras me descrevendo o que iam fazer com a minha menina de quatro meses. ‘Você é muito marruda, mas vamos ver se vai continuar assim quando ela chegar. Estamos cansados de trabalhar com adulto, já estudamos todas as reações, mas nunca trabalhamos com uma criança de quatro meses. Vamos colocá-la numa banheirinha de gelo e você vai ficar algemada marcando num relógio quanto tempo ela leva para virar um picolé. Mas não pense que vamos matá-la assim fácil, não. Vocês vão contribuir para o progresso da ciência: vamos estudar as reações, ver qual vai ser a reação dela no pau de arara, com quatro meses. E quanto ao choque elétrico, vamos experimentar colocando os eletrodos no ouvido: será que os miolos dela vão derreter ou vão torrar? Não vamos matá-la, vamos quebrar todos os ossinhos, acabar com o cérebro dela, transformá-la num monstrinho. Não vamos matar você também não. Vamos entregar o monstrinho para você para saber que foi você a culpada por ela ter se transformado nisso’. Depois disso, me jogavam na solitária. Eu quase enlouqueci. Um dia, eles me levaram para uma sala, me algemaram numa cadeira e, na mesa que estava na minha frente, tinha uma banheirinha de plástico de dar banho em criança, cheia de pedras de gelo. Havia o cavalete de pau de arara, a máquina do choque, e tinha uma mamadeira com leite em cima da mesa e um relógio na frente. Eles disseram: sua menina,ela já vai chegar e vamos ver se você é comunista marruda mesmo’… Era blefe.

Foi também o caso da jovem Nilda Carvalho Cunha, que, nas garras do medonho delegado Fleury, sofreu a tortura relatada por Emiliano José e Oldack Miranda:

Você já ouviu falar de Fleury? Nilda empalideceu, perdia o controle diante daquele homem corpulento. – Olha, minha filha, você vai cantar na minha mão, porquepassarinhos mais velhos já cantaram. Não é você que vai ficar calada . Mas eu não sei quem é o senhor… – Eu matei Marighella. Ela entendeu e foi perdendo o controle. Ele completava: – Vou acabar com essa sua beleza – e alisava o rosto dela. Ali estava começando o suplício de Nilda. Ela ouvia gritos dos torturados e se aterrorizava com aquela ameaça de violência num lugar deserto. Naquele mesmo dia vendaram-lhe os olhos e ela se viu numa sala diferente, quando pode abri-los. Bem junto dela estava um cadáver de mulher: era Iara [companheira do líder revolucionário Carlos Lamarca e a quem Nilda havia dado abrigo], com uma mancha roxa no peito, e a obrigaram a tocar naquele corpo frio”.

Nilda morreu cega e louca, aos dezessete anos de idade, repetindo: “eles me acabaram”.

Não deixar que se acabe, por meio do constante retorno à história: esse é o papel da mídia que se supõe comprometida. Só a retomada, a consideração responsável, a ponderação e conexão dos fatos podem oferecer ao leitor um mínimo panorama sobre a realidade que o cerca.

O traslado dos restos mortais de Jango, assim, não é simplesmente mais uma cerimônia ocorrida nos corredores do poder em Brasília. É a retomada de um debate fundamental, o reconhecimento de uma responsabilidade histórica do Estado brasileiro, o enfrentamento aberto e sincero com um passado cheio de dor e terror. Mais: é uma boa oportunidade para que se questione o peso e o papel de nossos jornais e revistas, que nos lembra que o silêncio consciente da mídia é o silêncio inconsciente da opinião pública, o mesmo silêncio que mata e tortura, de novo, Jango, Gilse, Nilda e tantos outros.


Renato Nunes Dias é mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

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Categorias: Sociedade

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