O que é seu está guardado?

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Bike Sharing. Foto de Richard Masoner – Cyclelicious.

Já imaginou usar um carro que não é só seu, mas cujos custos e benefícios são compartilhados com amigos? E aquela furadeira que você raramente usa? Já pensou em ir a um restaurante gerenciado por voluntários e só pagar o quanto acha justo? Difícil de imaginar? Pois há muita gente envolvida na ideia, transformada em prática em muitos lugares do mundo, na contramão do consumo desenfreado.

Não há dúvidas de que estamos vivendo uma época completamente dominada pelo consumo. Por trás de todo esse consumo exagerado existem claras razões: campanhas de marketing em busca de consumidores, políticas públicas que estimulam o aumento do consumo e ainda, segundo teorias da psicologia evolutiva, os produtos que consumimos e os serviços que contratamos são formas de exibição de aptidões física, mental e sexual para aqueles que nos rodeiam (1).

O consumo tenta preencher uma necessidade de pertencimento, que é natural do ser humano. A ostentação de itens como celular, roupa e carro, que são imediatamente visíveis, dão à pessoa a ilusão de que é alguém melhor numa sociedade competitiva e de comparação com o outro.

Mas, na mesma onda que vem surfando os empreendimentos que consideram a sustentabilidade como um de seus pilares básicos, surgem iniciativas como o consumo colaborativo – já reconhecido pela revista Time como uma das 10 ideias que podem mudar o mundo, ou uma parte dele!

O consumo colaborativo se apresenta, seja como troca, aluguel ou venda, como uma nova ferramenta de desenvolvimento. Uma das expoentes no assunto é  Rachel Botsman, que recentemente lançou o livro  What’s Mine is Yours: How Collaborative Consumption Is Changing The Way We Live. Ela partiu da ideia que temos muitas coisas em casa sem uso, ou que compramos objetos por que precisamos deles uma vez, como por exemplo: uma furadeira.

O consumo colaborativo surge no mercado de bens e serviços das grandes cidades como uma forma de atuar com mais consciência em um momento em que o mundo debate formas de se reinventar para enfrentar a severa crise econômica e ambiental. A expressão foi cunhada no começo da década passada nos Estados Unidos para identificar uma alternativa que surgia ao modelo de consumo excessivo e desenfreado que caracteriza a sociedade desse país desde a década de 1980.

Ainda pouco conhecido no Brasil, já conta com boas iniciativas em curso. O mais recente é o do bike sharing – sistema de bicicletas públicas que podem ser alugadas por tempo de uso na cidade. Já disponível em São Paulo e no Rio de Janeiro.

 O Instituto Alana também desenvolve um projeto inovador que é levar essa ideia para as crianças – público principal da publicidade de grandes empresas. É a feira de trocas, uma forma engajada e divertida de repensar a forma como consumimos.

Algumas cidades como Montreal, Londres e Nova York já estão testando as “ideias colaborativas” nos mais diversos setores. Em Montreal, há muitas hortas comunitárias, onde as pessoas do bairro se encontram para plantar. E há um controle social interessante: as pessoas só colhem alguma coisa da horta se tiverem plantado. Há também a “prateleira livre”, onde você pode deixar um livro para retirar outro. Isso tudo é muito interessante, porque pode estimular as pessoas a se perguntarem se precisam mesmo possuir todos os livros que já leram.

Melbourne, na Austrália, foi além. O restaurante vegetariano é conhecido por uma inusitada maneira de pagamento. Lá, qualquer pessoa come o quanto quiser, mas só paga o que achar justo. Isso acontece porque o restaurante não tem fins lucrativos, e a equipe de “funcionários” é composta basicamente de voluntários.

As iniciativas do consumo colaborativo alinham-se com o que muitos especialistas tem chamado de “era do mobilidade” – Internet, as comunicações telefônicas e o apelo que a sociedade tem feito por mais mobilidade nas cidades. Mais mobilidade também significa menos consumo, menos carro, menos acúmulo de produtos e menos emissão de CO2.

A ideia do consumo colaborativo passa ao largo de modificar o sistema capitalista que vivemos que inclui hábitos de compra, venda, acúmulo de produtos e, principalmente, propriedade. Mas, é o primeiro passo. Segundo Jeremy Rifkin que foi quem diagnosticou essa transição de uma “era da propriedade” para uma “era do acesso”, “a dimensão simbólica dos objetos diminui à medida que aumenta sua dimensão funcional”.

Nesse sentido, já que o acesso e a funcionalidade se tornam mais importantes do que o simbolismo e a propriedade, podemos encontrar o caminho para uma vida mais simples, sustentável e divertida simplesmente nos perguntando: preciso mesmo de tudo o que tenho guardado?

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Leandra Gonçalves Torres é bióloga, Mestre em Biologia Animal e estudante de Doutorado do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, onde tem estudado a governança ambiental global dos oceanos.

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Categorias: Meio Ambiente

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2 Comentários em “O que é seu está guardado?”

  1. 04/11 às 16:12 #

    Que legal, Alexandre. Obrigada. Continue nos acompanhando aqui n’O Gusmão. Tem muita coisa legal e temas bastante variados.

  2. 04/11 às 16:08 #

    Um dos textos mais legais que já li aqui no blog!

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