Davi acordou, porque o senhor atirou no Douglas

porque o senhor atirou no Douglas

Porque o senhor atirou no Douglas, de Caetano Patta.

“Disse mais Golias a Davi: vem a mim e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo”
Samuel 1:17

“Por que o senhor atirou em mim?”, teria perguntado Douglas, um jovem de 17 anos, no momento em que foi assassinado pela Polícia Militar, no dia 28 de outubro na periferia de São Paulo. Douglas não foi sozinho. Todos os dias a juventude da periferia é alvejada por armas do Estado brasileiro. Na periferia, a PM é letal, racista e impune. Nas passeatas, é descontrolada e deixa até os governadores em maus lençóis quando explicitam o treinamento de ódio que recebem. A Polícia Militar está sempre disposta a destilar brutalidade contra quem tem o que reclamar: índios, universitários, sem-teto, professores e, principalmente, pobres e negros, caso em que a ação não tem qualquer limite, resultando em mortes diárias.

A Polícia Militar é a vara curta que cutuca uma onça que já teria motivos suficientes para se revoltar, mas cuja revolta se torna incontrolável quando é escancarada a perseguição cruel e sistemática aos seus filhos. A política de “segurança” é antes uma política de violência, que conduziu o conflito social a tal ponto que já não cabe discutir se apoiamos ou não atos violentos. Talvez nos reste, por hora, apenas discutir as motivações ou a intensidade. Beira o cinismo condenar a sociedade por se revoltar de forma violenta – seja queimando ônibus na periferia, seja com ações diretas de Black Blocs -, com os expedientes da PM que observamos todos os dias. O Estado tem escancarado sua opção pela violência a cada novo episódio como o que tirou a vida de Douglas. Reverter a violência passa, antes de tudo, por uma revisão do Estado sobre o tema. O que, concretamente, significa rediscutir os métodos, objetivos e a própria existência da corporação Polícia Militar: herança e orgulho da Ditadura e uma absoluta aberração para um país que pretende construir paz e democracia

Se a Polícia Militar perguntar: “Por que você atirou pedras em mim?”, “Por que você está incendiando ônibus?”, “Por que você está fechando rodovias?”. A resposta é bastante óbvia: Porque o senhor atirou no Douglas.

Em solidariedade aos amigos e familiares de Douglas Rodrigues, mais um jovem inocente que teve sua vida tirada pela criminosa polícia militar.

Mais reflexões sobre violência policial n’O Gusmão: Pobreza, violência e polícia: a fatal combinação do caso Amarildo e Militarização da Polícia

 

Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador. Reúne alguns trabalhos no blog ociosobretela.tumblr.com

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