Na rabeira do Lulismo: as contradições da campanha eleitoral antecipada

O belo sorriso. (Foto: George Gianni)

O belo sorriso. (Foto: George Gianni)

Com a campanha presidencial adiantada, tanto pela oposição quanto pelo próprio governo, o papel das pesquisas de intenção de voto parece ter tomado relevância não apenas para os debates na sociedade civil sobre o rumo das eleições de 2014, mas também nos debates internos dos partidos que pretendem participar da corrida à presidência em 2014.

A turma de Marina Silva espera que enquanto a atual-vice-candidata, mas aspirante a cabeça-de-chapa, ainda figurar como possibilidade eleitoral desvinculada de Eduardo Campos nas pesquisas de intenção de voto ainda haverá uma esperança de que troque de lugar na chapa PSB-Rede com o cacique socialista, Eduardo Campos. A impressão é de que as intenções de voto nela, mantendo-se altas, e colocando-a em um patamar melhor que Campos, devam servir como barganha para que Marina assuma a dianteira na candidatura, e Eduardo Campos vire seu vice. O cenário é pouco provável, é verdade, já que Eduardo Campos só aceitou a vinda de Marina e seus apoiadores e apoiadoras do natimorto Rede Sustentabilidade ao PSB uma vez resguardada sua candidatura como presidente. E Marina aceitou o pacto, mesmo com seus mais próximos apoiadores sendo contra a ideia – inclusive, seu fiel escudeiro e marido, Fabio Vaz (que, aliás, é secretário adjunto de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis no governo estadual do Acre, comandado pelo petista Tião Viana).

Outra questão que nos faz suspeitar de que nem o bom desempenho de Marina Silva nas pesquisas faça com que ela inverta posições com Campos são as declarações da ex-ministra sobre a migração ao PSB. Enfática, fez questão de destacar que o PSB é apenas uma legenda de apoio para aqueles que, sem o espaço do Rede, queiram participar dos pleitos eleitoras. Mas que, em nenhum momento, os migrantes do natimorto partido defenderiam o projeto político do partido de Campos. É de se imaginar, então, que os membros mais antigos do partido não aceitem passivamente que se invertam as posições da chapa Campos-Marina para que passe a ser encabeçada por alguém que, abertamente, e mostra seu desdém pelo programa político – ou pelas aspirações políticas – da legenda em que está.

Mas a aparência é uma coisa e a essência é outra. E Marina Silva sabe jogar muito bem com essas duas dimensões. A sua aposta é que, para continuar se conectando com seu eleitor, precisa mostrar que ainda defende o projeto de uma “nova política” e, por isso mesmo, não é a favor de se conectar com pautas e programas políticos antigos. Ao mesmo tempo, defende publicamente o já conhecido tripé macro-econômico, – que Aécio Neves, diga-se de passagem, também defende – ao mesmo tempo em que Dilma Rousseff já disse que tais princípios nunca foram abandonados por seu governo. O que faz nos questionar para qual direção a candidatura de Marina Silva e Eduardo Campos caminha, já que, ao contrário do prometido e propagado por Marina, a velha política está tão presente nos discursos daquela que se propõe a ser a candidata messiânica, que viria para salvar e livrar a sociedade brasileira de todo “atraso” que o “velho” carrega. Assim, Marina Silva confunde seu eleitor e deixa plantada a dúvida: será que a salvação virá mesmo quando aliada a um partido tradicional?

A indicação à candidatura presidencial pelo PSDB parecia decidida a partir do momento em que Aécio Neves assumira a presidência nacional do partido e já começara a “conversar” com o eleitorado nas inserções televisivas em rede nacional. Mas a antecipação da campanha para 2014 surtiu outro efeito, uma vez que o desempenho de Aécio Neves nas pesquisas de intenção de voto não decolou como o esperado. O sempre candidato José Serra, que decidiu, de última hora, ficar no partido por acreditar que ainda tinha chances de concorrer à indicação dos tucanos para as eleições presidenciais de 2014, reapareceu. Serra teve carta branca de alguns de seus correligionários para percorrer o país e discursar contra o governo – suas críticas são ainda mais duras do que as de Aécio, que prefere não mexer com a figura nem o legado de Lula -, e costurar alianças. Seu sonho de ser presidente não se esmaeceu e Serra ainda acredita, enquanto Aécio não decola nas pesquisas de intenção de voto, na possibilidade de tentar chegar ao planalto outra vez. Serra só esqueceu que, apesar do desempenho ruim do ex-governador de Minas Gerais e atual senador com o eleitorado um ano antes da eleição, quando ele próprio figura como candidato de seu partido, tem mais rejeição do que intenção de voto. E, No retrospecto das pesquisas de intenção de votos brasileira, este é um ponto central: nunca alguém com rejeição maior do que 50% conseguiu reverter o quadro e ganhar a eleição.

O PSDB parece estar tão acuado que, semana passada, para o espanto de todos, até a re-estatização da Petrobrás, após o Leilão de Libra, foi defendida por Aécio Neves na tribuna do Senado. Contrariando as vontades históricas de seu partido que, durante o governo FHC tinha o ímpeto de privatizar a Petrobrás (um regime bem diferente da partilha do pré-sal proposta pelo PT, ainda que os dois sejam, no frigir dos ovos, a entrada do capital privado na exploração das nossas mais preciosas fontes não-renováveis). Mas será que ele conseguiria defender tal discurso frente a seu eleitorado, publicamente, em horário eleitoral, sem causar estranheza ou, no mínimo, controvérsia? Difícil. A única hipótese que nos resta é que, a partir de um discurso seletivo, Aécio queira conquistar fatias do eleitorado do Lulismo. Mas, para tal, teria que conversar com muita gente.

Ontem mesmo o senador mineiro apresentou um projeto de lei que, só pela sua descrição, espanta até os defensores do programa. Apresentou projeto para tornar o Bolsa-Família um programa de Estado. O que significa, basicamente, a incorporação do programa à Loas (Lei Orgânica de Assistência Social), fazendo com que o PBF passasse a ter recursos garantidos pelo Fundo Nacional de Assistência Social, sob controle do Conselho Nacional de Assistência Social. Atualmente, o financiamento do programa, vem do Orçamento de Seguridade Social da União e das dotações alocadas nos programas federais de transferência de renda. Assim, o orçamento do PBF é sujeito à aprovação enquanto faz parte dos gastos que o executivo decide alocar. O que Aécio sugere com tal proposta de lei, em linhas maiores, é que a destinação dessa verba não passe mais pelo crivo de aprovação, e tenha uma destinação “automática”.

Apesar de seu discurso girar em torno de tentar retirar do PT o mérito do programa, dizendo que ele seria algo inerente à estrutura de governo brasileiro e não de um mandato ou de uma gestão ou de alguém, o que é mais marcante no episódio é que ele contradiz um posicionamento histórico do PSDB. Para exemplificar tal posicionamento, relembro a participação do Presidente do Diretório municipal do PSDB paulistano, o ex-deputado e atual Subsecretário de Energias Renováveis do Estado de São Paulo, Milton Flavio, em um debate público na Faculdade de Direito do Largo da USP em 2012. Com todas as palavras, Flavio defendia que o caráter do PBF era questionável e eleitoreiro, algo que incentivava a vagabundagem e as mulheres nordestinas a terem mais filhos às custas do governo e que a solução era “ensinar a pescar, e não dar o peixe”. Sendo assim, nos parece que é latente a mudança de postura da pré-candidatura do senador mineiro, justamente porque parece ser na rabeira do Lulismo que Aécio Neves quer se eleger.

O fato é que, caso o período eleitoral continue na mesma toada, assistir, mais uma vez, a embates que girarão em torno do Lulismo, suas conquistas, suas possibilidades de avanço, seus erros e como pode ser superado sem que seja negado. Mas aí está, justamente, o potencial diferencial das campanhas tucanas, dependendo de quem for o candidato: caso seja José Serra, o Lulismo em seus avanços será negado, caso seja Aécio Neves, já que o senador esboça uma condescendência com o projeto, a campanha deve se focar no argumento de que os rumos do Brasil estariam mais reféns de uma “má gerência” das políticas propostas do que da carência de novas.

Juliana Moura Bueno é Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, seus temas de pesquisa se relacionam ao estudo de comportamento eleitoral, partidos, eleições, política brasileira e classes sociais.

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Categorias: Política

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