Picharam nossos heróis. E daí?

Monumento às bandeiras (foto de cdiazizquierdo, Flickr)

Monumento às bandeiras (foto de cdiazizquierdo, Flickr)

Na noite de 2 de outubro, um grupo de indígenas e outros cidadãos que se identificaram com a causa se reuniram em frente ao vão livre do MASP, na Av. Paulista, e seguiram até o Monumento às Bandeiras em protesto contra a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 215. Desde 2000, a PEC 215, de autoria do ex-deputado roraimense Almir de Sá, tramita entre a Comissão de Constituição e Justiça e o plenário da Câmara dos deputados. A PEC 215 prevê que a aprovação da demarcação das áreas indígenas seja de competência do Congresso e não mais do Poder Executivo. Atualmente, o poder federal é responsável pela demarcação de terras indígenas, quilombolas e zonas de conservação ambiental. A proposta estipula que essa competência seja transferida para o Congresso e, com isso, a demarcação destas áreas passaria a ser regulamentada por lei e não mais por decreto. A PEC 215 não ataca apenas os poderes federais, como também a autonomia da própria FUNAI (Fundação Nacional do Índio) que elabora estudos a partir dos quais o governo federal faz as deliberações a respeito. Para além das manifestações, a proposta é inconstitucional, já que fere o artigo 60parágrafo 4ºda Constituição Federal[1]. A PEC 215 certamente deve ser tema de um próximo artigo, que se debruce inteiramente a ela e as suas (possíveis) graves implicações, mas aqui, gostaria de me deter no desenrolar das manifestações e nas interações que ela estabeleceu com a cidade.

Como sempre, as pichações ao monumento foram demonizadas pela grande mídia como sendo fruto de vandalismo. O fato é que os manifestantes foram muito acertados na escolha do local para pichação, pois foi um ato extremamente simbólico.

O Monumento às Bandeiras teve seu primeiro projeto concebido, ainda na década de 1920, pelo escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, que foi responsável por esculturas de outros bandeirantes que foram instaladas pela cidade, como a escultura do Anhanguera, na Av. Paulista e de Fernão Dias e Raposo Tavares[2] que estão nas laterais do Museu Paulista. Estes bandeirantes, como sabemos, além de ganharem estátuas, dão nome a importantes rodovias do estado de São Paulo.

Entre os séculos XVII e XVIII, os bandeirantes foram importantes figuras da história brasileira. Eram homens que saíam, sobretudo, de São Paulo, rumo a exploração do interior e do litoral. Embora tenham aberto muitos caminhos e possibilitado a ampliação da ocupação do país, eles percorreram estes caminhos capturando (quando não, matando) índios para vendê-los como escravos. Ou seja, expandiram nossas fronteiras, às custas de um rombo na população nativa, esvaziando, em grande parte, o interior do país.

Monumentos e estátuas tais quais as citadas expressam o caráter ideológico que tomou os monumentos e expressões culturais brasileiras por muito tempo. O Monumento às Bandeiras é um dentre os tantos exemplos de tentativas da elite cultural paulista em construir o “mito do bandeirante”, colocando-o na figura de herói que sintetizava o ideal paulista. Essa tentativa é tributária das grandes sociedades ocidentais que desde sempre buscaram pontuar o espaço urbano com a visão daqueles que estavam no topo da hierarquia social. É neste sentido que os escritos sobre História do pensador Walter Benjamin podem colorir esta discussão[3]. Nos alertaria Benjamin, a grosso modo, para o fato de que todo bem cultural, todo documento cultural seria produto da barbárie, do sofrimento e do esforço de muitas pessoas que estariam inseridas na luta de classes. Os vencedores dessa luta teriam como prêmio, portanto, os próprios bens culturais. Monumentos culturais e históricos, como o Monumento às Bandeiras seriam nada mais do que “documentos de barbárie”, da dominação do homem pelo homem, da dominação do índio pelo branco bandeirante. Sem saltos tão longínquos na história, “documentos de barbárie” podem ser vistos também em ruas e avenidas que são nomeadas com nomes de ditadores: a Rodovia Castello Branco, o elevado Costa e Silva, a Rua Dr. Sergio Fleury.

O Monumento às Bandeiras figura um papel importante na cidade de São Paulo e por isso foi limpo, imediatamente no dia posterior, pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura. O filho do artista Victor Brecheret veio a público demonstrar sua indignação com os acontecimentos e pediu para que fosse colocado um detector de passagem que ativasse uma sirene quando alguém se aproximasse do monumento. Ora, os cidadãos não têm apenas direito à manifestação, mas, sobretudo, direito à cidade. Direito à interação e à construção da cidade e seus sentidos.

Já que as manifestações contra a PEC 215 acabaram tocando a questão dos símbolos da cidade, fica a sugestão para o ponto de encontro para outras próximas manifestações: lá na Av. Santo Amaro, próximo ao monumento (do bandeirante assassino) Borba Gato, combinado?

[1] O artigo 60, parágrafo 4º proíbe a deliberação de propostas de emenda propícias a abolir a forma federativa de estado, o voto secreto, a separação de poderes e direitos e garantias individuais.

[2] A ideia de desenvolvimento de uma identidade paulista por meio de esculturas e monumentos foi muito bem desenvolvida pelo historiador Paulo César Marins no texto O Parque Ibirapuera e a construção da identidade Paulista.

[3] Walter Benjamin foi um grande pensador da Escola de Frankfurt na década de 1920 e 1930. Embora seus escritos não tem uma unidade temática, é possível rastrear dentre seus escritos uma tentativa de filosofia da História. Há dois textos (há outros também) que ajudariam foram fonte de inspiração para a construção deste artigo: História e Coleccionismo: Edward FuchsAs Teses sobre o Conceito de História.

Veridiana Domingos é socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da mesma instituição, trabalha com educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência

Texto revisado por Jaqueline Zanon, formanda em Letras pela PUC-SP. Atua com ensino de idiomas, além de tradução, interpretação e revisão de textos e desenvolve pesquisas no ramo da linguística. Permeia por diversos campos de conhecimento, focando essencialmente em cultura, artes e línguas.

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Categorias: Sociedade

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6 Comentários em “Picharam nossos heróis. E daí?”

  1. Anônimo
    09/09 às 12:23 #

    Já pegaram a estatua do Borba Gato na manha do feriado de 7 de Setembro

  2. Feliciano Cordeiro
    05/11 às 02:37 #

    Não que se evidenciar a contribuição dos nordestinos para esta cidade, São Paulo, pelo contrário, eles vieram em grande número mas não tiveram o mesmo espaço que os imigrantes, em número, que ocuparam os espaços por aqui, desde o século 18, vieram portugueses, italianos, espanhóis, alemães, judeus, árabes, armênios, que se estabeleceram em quase guetos, dividindo os espaços inicialmente ocupados pelos índios, jesuítas, portugueses e “bandeirantes”. Se houve elite paulistana, ela se resumiu ao conluio daqueles com mais posses que chegaram no antes do século 18 e aqueles outros, que foram por eles muito bem vindos, aqueles imigrantes que chegaram em São Paulo com a força empreendedora e que construiram uma cidade industrial. Foi muito importante para São Paulo ter tido as chaminés que teve, como as frases de ufanismo, SÃO PAULO, A CIDADE QUE MAIS CRESCE NO MUNDO, inscritas nas carrocerias de seus caminhões de lixo, nas décads de 50 e 60, como o contraponto chocante no discurso do prefeito Figueiredo Ferraz, nomeado pelo governador Abreu Sodré, instalado como governador pela Ditadura, que chocou a cidade, porque pela primeira vez alguém disse, SÃO PAULO TEM QUE PARAR DE CRESCER. Mas nesse crescimento vertiginoso, nessa velocidade toda, caos instaurado na metrópole, não que se afirmar que em São Paulo, uma elite tenha se consolidado. As elites em São Paulo, na mesma velocidade em que se instalavam, na mesma velocidade desapareciam. Mas claro, houve um grupo, entre os anos 20 e 60, que se instalou no poder, direta ou indiretamente, e que utilizou daquele ocasião para nominar ruas, para construir monumentos, prá instalar parques e tentar passar à história. Concordo com a Veridiana, seja o monumento do Duque de Caxias, seja o deixa que eu empurro, foram marcos instalados na cidade que representam só um espaço exíguo do tempo que foram consumidos pelas obras instaladas na cidade de quase vinte milhões de habitantes.

  3. Feliciano Cordeiro
    01/11 às 00:09 #

    Comentário, Revestida de pedras brasileiras, colorida e grandiosa, a estátua do bandeirante Borba Gato foi inaugurada em 1962. Criada pelo artista Júlio Guerra, a escultura demorou seis anos para ser construida com cerca de 10 metros de altura e pesando 20 toneladas.O Júlio Guerra também concebeu o monumento da Mãe Preta e do São Pedro.

  4. 30/10 às 22:56 #

    Olá Alexandre, obrigada por ler O Gusmão. Primeiramente, não há uma única elite paulistana. A elite a qual me referi aqui, como mencionado no texto, é a elite CULTURAL paulistana, já que não se pensa classes sociais a partir apenas da perspectiva econômica há muitas décadas. Quanto à elite a qual você se referiu, provavelmente deve ter sido a elite econômica que, como você disse, de fato “construiu” São Paulo. Lembremos, no entanto, que eles construíram fábricas e aportes urbanos, mas não o fizeram sozinhos. Essa elite era apenas dona de um capital que teve que contar com ajuda de milhares de trabalhadores, não apenas paulistanos, mas sobretudo nordestinos. Assim, a “elite” pauslitana não “construiu” São Paulo, mas sim injetou capital aqui e teve que contar com pauslistanos, nordestinos, nortistas, entre outros, que de fato, construíram São Paulo. Sua perspectiva de que a elite paulistana cosntruiu São Paulo tem a ver com o que Benjamin (também citado no texto) diz sobre a construção historicista da História, a qual oculta os oprimidos e dá relevância aos opressores, dando a possibilidade para que os últimos tenham domínio dos bens culturais. No texto, o exemplo foram os bandeirantes, mas poderíamos dar outros mais atuais, como a Av. Matarazzo, que leva o nome do industrial. Contudo já não encontramos ruas com nomes de trabalhadores que tiveram a mesma importância que ele. Quando às pichações, elas deixam de ser vandalismo, uma vez que tem um cunho político e simbólico muto forte, tal que expicitado no texto.

  5. 30/10 às 19:53 #

    Sinceramente, descordo de suas colocações sobre uma “elite” paulistana e sobre a justificativa de picharão do monumento. Nada justifica o vandalismo.
    E a propósito, essa chamada elite paulistana é quem construiu o país.

    • 31/10 às 09:19 #

      Alexandre,

      Acredito que o argumento fundamental no texto se baseia na compreensão da ideia de Walter Benjamin de que não há civilização ou bem cultural sem a barbárie – morte, assassinato, depredação, exploração, escravização.

      Evidentemente, concordo com você, que a ‘elite’ construiu até aqui o sentido da ocupação territorial, da produção econômica e etc. Agora, reconhecer isso não nos veda a possibilidade de reconhecer também – na linha do reconhecimento da barbárie – que a ocupação, o desenvolvimento e o dito ‘progresso’ tem custos fundamentalmente humanos.

      Não acho que reconhecer o ‘progresso’ empreendido por esses homens seja sinônimo de estabelecermos com eles quaisquer laços de lealdade ou fidelidade. Pelo contrário, de uma posição humanista, surge um imperativo: reconhecer qual ‘o lado fraco’ da balança do processo civilizador.

      Finalmente, o que significa que façamos monumentos ‘ao lado forte’ do processo? Elevado Costa e Silva (o general que baixou o AI5 e instituiu a repressão no Brasil), Rua Sergio Fleury (o chefe do DOPS que torturou e assassinou vários militantes de esquerda), o próprio Monumento às Bandeiras.

      Parece que, se aceitamos puramente essas figuras no nosso cotidiano na cidade, ficamos no discurso “Pô, valeu, vocês, nossos heróis, fizeram isso tudo, estamos aqui por causa de vocês, obrigado!”. E nos esquecemos daqueles que, pura e simplesmente, morreram no processo. E, pior, nos esquecemos que, no mais das vezes, nós próprios estamos ‘do lado fraco’ da balança, embora fantasiando que estejamos do ‘lado forte’.

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