Migração e tensão étnica na Rússia: pogroms em Moscou

Desde a dissolução da União Soviética, em 1991, a palavra pogrom – ataque em massa dirigido a grupos étnicos e religiosos por meio de violência pessoal e da destruição de suas propriedades – tem estado presente no cenário sóciopolítico da Rússia e das repúblicas recém-independentes. Os distúrbios na região de Biryulyovo Zapadnoye, situada no extremo sul da capital russa, reascenderam os debates acerca da questão étnica e migratória no país, tanto no âmbito governamental – Parlamento russo (Duma) – , quanto no social e midiático. 

Pogrom em Biryulyovo Zapadnoye, Moscou, 13 de outubro de 2013 Fonte: RIA Novosti. Anton Denisov

Pogrom em Biryulyovo Zapadnoye, Moscou, 13 de outubro de 2013
Fonte: RIA Novosti. Anton Denisov

A tensão teve início no último dia 10 de outubro, após o assassinato do jovem russo Egor Scherbakov, supostamente por um imigrante da ex-república soviética do Azerbaijão. Segundo testemunhas, Egor dirigia-se ao seu domicílio acompanhado da namorada quando foi ofendido pelo imigrante, que estava alcoolizado. Ambos iniciaram uma briga que terminou com o esfaqueamento do jovem. No dia 13, domingo, a população local se reuniu para exigir a prisão do assassino e a remoção dos imigrantes não documentados, acusando-os de estarem envolvidos em diversos crimes. Grupos ultranacionalistas e neonazistas se somaram ao protesto e dirigiram-se a maior feira de hortifrutigranjeiros da capital – um centro de abastecimento semelhante ao CEAGESP -, onde trabalham centenas de imigrantes. Ao tentarem invadir e incendiar o estabelecimento, foram barrados pela tropa-de-choque (OMON), o que resultou em um conflito. No dia seguinte, atendendo aos clamores da população, as autoridades russas iniciaram a detenção de mais de 300 imigrantes irregulares que trabalhavam no local. Na mesma semana, o corpo de um uzbeque foi encontrado esfaqueado próximo à região. Vale destacar que em setembro outro conflito de considerável magnitude desencadeou-se após grupos nacionalistas tentarem invadir um alojamento de imigrantes em Kapotnya, também na periferia sul moscovita.

Os recentes acontecimentos remetem à tensão de 2010, quando o russo Egor Sviridov foi assassinado por um imigrante do Cáucaso Norte, durante uma briga de torcidas.  Aproximadamente cinco mil manifestantes, dentre os quais membros de grupos neonazistas, skinheads, e torcedores do Spartak de Moscou, reuniram-se na Praça Manezhnaya, localizada ao lado do Kremlin, sede do Poder Executivo russo. Os grupos mais exaltados deixaram o local e provocaram uma série de ataques a imigrantes das ex-repúblicas soviéticas, culminando com a intervenção da OMON. Durante vários dias foram registrados motins étnicos entre nacionalistas russos e imigrantes, também organizados em grupos extremistas. Mais de 1.300 envolvidos foram detidos na ocasião e manifestações de apoio ganharam espaço em diversas regiões da Rússia. O mesmo ocorreu nos dias seguintes aos recentes distúrbios de Biryulyovo – russos em Satatov, Krasnodar, Volgogrado, Omsk e Astrakhan manifestaram apoio à população do bairro moscovita.

Segundo o departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, a Federação Russa ocupa hoje o segundo lugar no mundo em número de imigrantes, atrás apenas dos Estados Unidos. Estima-se que aproximadamente 11 milhões residam no país atualmente, a grande maioria oriunda principalmente das ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso e da Ásia Central, dentre elas Uzbequistão e Tadjiquistão. Como ocorre em outros estados, os imigrantes ocupam os cargos de menor qualificação e remuneração e são denominados gastarbeiter (do alemão, “trabalhador convidado”):  gari, caixa de mercado, construtor civil, dentre outros. A especificidade desse fenômeno na Rússia está no choque cultural, que abrange diferenças linguísticas e religiosas – os russos, em grande maioria são cristãos ortodoxos, enquanto os imigrantes são muçulmanos.

Em qualquer estação de metrô pode-se observar quão grande é o fenômeno migratório no país. No mesmo local, conversando com cidadãos russos, é igualmente possível notar a insatisfação da população em relação à presença dos imigrantes. O argumento mais utilizado é que os mesmos “não se comportam adequadamente”. Contudo, quando se indaga qual é o comportamento “inadequado” há muitas divergências e imprecisão. Uma situação frequentemente mencionada é a dos casamentos chechenos, nos quais “se comemora com tiros para cima”; afirma-se que alguns andam armados com facas ou pistolas, “brigam por qualquer motivo” e frequentemente “contam com a ajuda de seus conterrâneos”;  “abordam as mulheres de maneira hostil, quando não agressiva”; “constituem máfias e demais grupos criminais”. Segundo muitos russos, “é melhor não se relacionar com eles”. Certamente, há também vozes favoráveis, mas são visivelmente minoria. Consideram que os imigrantes garis “trabalham muito melhor que os garis russos” e que eles respeitam os idosos, pois “sempre concedem o lugar no metrô”.

Intervenção da OMON, tropa-de-choque russa, em Biryulyovo Fonte: RIA Novosti, Maksim Blinov, 13.10.2013

Intervenção da OMON, tropa-de-choque russa, em Biryulyovo
Fonte: RIA Novosti, Maksim Blinov, 13.10.2013

As autoridades russas se encontram num verdadeiro dilema entre atender aos clamores populares e restringir a imigração ou abrir as fronteiras para contrabalancear o crescimento populacional negativo que o país apresentou nas últimas décadas e garantir mão-de-obra barata a fim de cobrir a demanda gerada pelo crescimento econômico alcançado após o ano 2000. Em diversas ocasiões o atual presidente, Vladimir Putin, declarou que a imigração das ex-repúblicas soviéticas deve ser bem vinda, pois a população desses países comparte muitos valores históricos e culturais com a Rússia – muitos têm, inclusive,  o russo como língua oficial ou segunda língua. Em contrapartida, junto ao primeiro-ministro, Dmitriy Medvedev, afirmou que os imigrantes devem respeitar os costumes e a cultura do local que escolheram para morar. O presidente também chegou a admitir que a legislação migratória é bastante confusa e que algumas alas do Parlamento equivocadamente consideram que os cidadãos das ex-repúblicas soviéticas têm os mesmos direitos civis e políticos que os russos.

A questão étnica na Rússia contemporânea abrange não apenas imigrantes do “Estrangeiro próximo”, como são denominadas as repúblicas supramencionadas, mas também migrantes provenientes de outras regiões do país. Na língua russa há duas palavras diferentes que em português são traduzidas apenas por “russo”: rossiyan, que denomina aquele que tem a cidadania na Rússia (Rossiya), e russkiy, que denomina o grupo étnico majoritário – aproximadamente 80% da população – cuja língua nativa é o russo. A complexidade da situação deve-se ao fato de no país conviverem mais de 180 grupos étnicos, chamados de “nacionalidades”. Para exemplificar, um checheno tem a cidadania russa (é um rossiyanin), mas não tem a nacionalidade russa (não é um russkiy, é um chechenetz). As 21 regiões onde parte considerável da população pertence a nacionalidades locais não-russas foram contempladas com o status de “República”, ou seja, elas detêm maiores direitos dentro da federação, se comparadas às outras subdivisões administrativas. Em algumas delas há fortes movimentos separatistas e fundamentalistas religiosos, como na Chechênia e no Daguestão, situadas no Cáucaso Norte. Periodicamente há ocorrências de atentados terroristas e incursões do exército. Dentre os mais marcantes, é imprescindível mencionar o cerco à escola de Beslan em 2004, onde guerrilheiros fizeram mais de 1.200  reféns e 344 civis foram mortos. Com menor frequência, mas de maior impacto midiático, atentados são realizados em Moscou – foi assim em 2011, no aeroporto internacional Domodedovo, 2010, em duas estações do metrô e 2002, com a crise de reféns no teatro Dubrovka.

Feriado muçulmano Kurban-Bayran (Dia do Sacrifício) em Moscou Fonte: Evgeniy Babushkin, 15.10.2013

Feriado muçulmano Kurban-Bayran (Dia do Sacrifício) em Moscou
Fonte: Evgeniy Babushkin, 15.10.2013

Os nacionalistas russos defendem uma política migratória que restrinja a circulação dentro do próprio território da Federação Russa, o que já foi publicamente rejeitado pelo presidente Putin, além de ser uma proposta inconstitucional. Frequentemente enunciam o slogan “a Rússia para os russos!” (“Rossiya para os ruskiye, não para os rossiyane”). Segundo pesquisas de opinião realizadas pelo Instituto Levada em novembro de 2012, 56% dos russos estão de acordo com o slogan. Em relação ao lema “Basta de alimentar o Cáucaso!”, aludindo aos inúmeros investimentos que o governo federal realiza para modernizar a região e diminuir as tensões sociopolíticas, a percentagem de apoio sobe para 65% da população. Também 65% da população é contrária a vinda de trabalhadores de outras regiões da própria Rússia para as cidades em que residem.

No parlamento russo, Duma Estatal, as discussões acerca do pogrom de Buryulyovo não foram menos acirradas que na sociedade. O líder do Partido Liberal Democrata da Rússia (LDPR), Vladimir Zhirinovskiy, advertiu que a Rússia está sofrendo uma “colonização interna” por parte das outras regiões nacionais, especialmente do sul. Segundo ele, o atual governo não reage a esse fato porque recebe “o voto de 100% da população nas regiões”, a qual age assim em troca de “dinheiro e direitos”, Em polêmica e irônica citação mencionou: “…quanto aos russos (russkie), deixe que se embebedam, deixe que os estuprem, deixe que os roubem. (…) Deve-se tomar uma decisão radical – expulsar os imigrantes”. Na mesma direção manifestou-se o representante do Partido Rússia Justa (Spravedlivaya Rossiya), Oleg Nilov, afirmando que “deve-se deportar todos os imigrantes ilegais, que constituem não 8, mas 10 milhões”. De acordo com Valeriy Rashkin, deputado do Partido Comunista da Federação Russa (KPRF), as causas do conflito são “as de sempre: migração ilegal em massa, alimentada por representantes das autoridades locais, por gangues criminais e acobertada pelos agentes da lei (polícia)”. A única manifestação moderada foi a do representante do partido da situação Rússia Unida (Edinaya Rossiya), Vladimir Vasylyev, o qual destacou que “o crime não tem nacionalidade”.

É importante destacar que tais tipos de ocorrência não se restringem a Moscou. Em julho deste ano, um russo foi assassinado por um checheno durante uma briga na cidade de Pugachiov. A população local se revoltou e reuniu-se em frente à administração regional exigindo a remoção dos imigrantes. Diversos distúrbios foram registrados. Em 2006, na cidade de Kondopoga, situada na República da Carélia, um pogrom teve início após a morte de dois russos por imigrantes da Chechênia e do Daguestão. Além de protestos exigindo a deportação da população não documentada, civis atacaram estabelecimentos pertencentes aos imigrantes. Na época, o presidente da República da Chechênia, Ramzan Kadyrov, exigiu que as autoridades locais garantissem a segurança e o respeito aos direitos de seus conterrâneos. O pior pogrom recentemente verificado no Espaço Pós-Soviético ocorreu no sul do Quirguistão, em 2010, envolvendo grupos étnicos uzbeques e quirguizes. Fontes oficiais afirmaram que 442 pessoas foram mortas, enquanto não oficiais mencionaram números acima de 1.000. De acordo com o Instituto Levada, 43% da população russa considera que, visto a atual tensão, há a possibildade de um “derramamento de sangue” no país por conflitos étnicos.

No último dia 15, dois dias após as ocorrências em Biryulyovo Zapadnoye, manifestantes planejaram um protesto na estação Prazhskaya, denominado “Nossa resposta ao Kurban-Bayran!”, em alusão ao feriado muçulmano celebrado pela maior parte dos imigrantes. Visando prevenir novos atos de violência, as autoridades russas fecharam o comércio próximo ao local, detiveram mais de 50 manifestantes e dispersaram os demais. As atuais reivindicações incluem o fechamento da feira hortifrutigranjeira da região, a deportação dos imigrantes ilegais e o estabelecimento de um regime de vistos com os países membros da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), organização internacional que abrange a maioria das ex-repúblicas soviéticas. Em entrevista ao jornal Moskovskiye Novosti, o diretor da citada feira, Magomed Churilov, declarou que, caso ela seja fechada, haverá uma crise de abastecimento na cidade, tendo em vista que “mais da metade” das frutas e verduras que são vendidas em Moscou chegam, em primeira instância, a esse mercado.

Cartaz “Autoridades, reconheçam o problema – comecem a agir!” Fonte: Vedomosti. A. Makhonin, 13.10.2013

Cartaz “Autoridades, reconheçam o problema – comecem a agir!” Fonte: Vedomosti. A. Makhonin, 13.10.2013

Quatro características são fundamentais nos atuais conflitos étnicos da Rússia: 1) A utilização de redes sociais para reunir tanto manifestantes locais, quanto grupos neonazistas. Nacionalistas de diversas regiões da cidade planejaram se juntar aos moradores de Biryulyovo por meio do vkontakt (“facebook” russo). O mesmo ocorreu em outras manifestações extremistas, como a realizada na praça Manezhnaya em 2010. 2) A participação espontânea da população. Diferentemente dos ataques xenófobos realizados nos anos 1990 e começo de 2000, as atuais manifestações não são realizadas apenas por grupos skinheads. A insatisfação com a situação migratória é um fato marcante nas grandes cidades russas, logo a população comum se mostra cada vez mais ativa nesse tipo de protesto. As imagens registradas em Biryulyovo mostram, inclusive, a participação de crianças e idosos. 3) A generalização do fato particular. Alguns imigrantes cometem crimes, mas a grande maioria, que apenas trabalha honestamente, sofre as consequências. Antes mesmo de se confirmar se o assassino do jovem russo trabalhava ou não no mercado, a população enraivecida já atacava o estabelecimento. 4) O efeitospill-over (“dominó”). Moscou é o centro político e econômico da Federação Russa. As manifestações que ali ocorrem rapidamente ganham a adesão de outras cidades espalhadas por todo o país.

Os fatos apresentados no presente artigo evidenciam o quão delicada é a questão étnica e migratória para a Federação Russa. Cabe ao Kremlin definir os rumos de uma política de Estado que leve em conta tanto as tensões culturais presentes na sociedade, quanto as necessidades econômicas e as relações bilaterais e multilaterais com as ex-repúblicas soviéticas, principal área de influência do país. O grande desafio é: onde está o ponto de equilíbrio?

Este texto é uma contribuição externa de Vicente Giaccaglini Ferraro Jr., mestrando em Ciência Política pela Escola Superior de Economia de Moscou e Membro do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo (LEA-USP), Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Contato: vgferraro.jr@hotmail.com e v-giaccaglini@edu.hse-ru

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