Imprensa independente: entrevista com Victor Navasky

Entrevistei Victor Navasky, professor no curso de jornalismo da Universidade de Columbia, autor de livros sobre imprensa e ex-editor da The Nation, revista de opinião fundada nos Estados Unidos em 1865, com o objetivo de identificar, de forma ampla e inclusiva, causas sociais relevantes e apoiar partidos que pudessem levar tais causas à frente.

Em nossa conversa, Victor fala sobre a concentração dos meios de comunicação, a importância da mídia independente e, entre outros temas, a relação entre mídia e governo.

Gusmão: Como editor emérito da The Nation, mais antiga revista semanal nos Estados Unidos e “bandeira da esquerda”, qual sua avaliação da imprensa de opinião nos Estados Unidos?

Victor Navasky: A informação oferecida pela mídia está com problemas.  Isso se deve ao fato de uma crescente concentração da mídia, o que significa que, com algumas poucas exceções, a informação transmitida pela grande mídia tende a ser homogeneizada; e também [é preciso considerar] que com o advento das novas tecnologias digitais, antigos padrões (verificação dos fatos, edição e uso mínimo de fontes anônimas) foram esquecidos, diminuídos e/ou colocados de lado.

G:Não é comum ver no Brasil veículos de imprensa tão antigos e de tão grande circulação como a The Nation, que declarem suas perspectivas ideológicas de maneira tão objetiva. Quais são os objetivos da revista?

VN:  O objetivo principal da The Nation é ajudar seus leitores a alcançar a verdade; por meio da análise e do jornalismo investigativo, construindo uma série de debates ausentes na mídia mainstream – debates entre radicais e liberais, mais do que entre democratas e republicanos. A revista também produz conteúdo sobre e advoga pela causa dos sub-representados, das minorias (políticas, culturais e étnicas), defendendo, no processo, a liberdade de opinião e os valores exemplificados na quinta emenda à Constituição estadunidense [que garante liberdade frente a ações arbitrárias por parte do poder público].

G: O cenário de produção e veiculação de opinião e informação no Brasil é marcado por uma concentração histórica: 75% dos meios estão nas mão de 5 grandes grupos/famílias. Há um projeto de lei em tramitação – a Lei da Mídia Democrática – que, entre outros pontos, visa fomentar a produção comunitária de conteúdo e proíbe políticos de serem donos de meios de comunicação. Como você analisa a concentração dos meios de informação e o papel da mídia independente?

VN: Acredito em formas de democratização da mídia por meios como este que você descreveu. Também acredito nos subsídios a jornais independentes e outros meios (por meio de redução de custos de postagem [de exemplares], isenções fiscais para cooperativas de gráficas), ações anti-truste contra monopólios da mídia e a concessão de emissão que leve em conta a pluralidade de vozes – essas e outras políticas que encorajem a liberdade de pensamento e desencorajem a censura que parta do governo ou da grande mídia, são todas formas que devem ser tentadas.

G: A internet transformou as formas de acesso e divulgação de informação.  Quais as consequências sociais desse processo?

VN: No curto prazo, a velocidade de transmissão de informação causa a perda de qualidade dos padrões desenvolvidos para a promoção e proteção da acuidade da informação. No longo prazo, as possibilidades de mais e mais pessoas poderem ser atingidas pela mídia interativa pode ser saudável para a democracia.

G: O recente caso Snowden expôs o papel do governo americano na espionagem a pessoas comuns e lideranças de muitos países, entre eles o Brasil. Qual é, em sua opinião, a relação entre mídia e governos – a mídia pode fazer o papel de freio e contrapeso à ação governamental?

VN: Uma mídia independente é a melhor esperança para expor e prevenir ações de governos que invadem a privacidade [de cidadãos] e perpetram outras intrusões e desrespeitos aos direitos e liberdades civis.

G: Em seu livro “A Matter of Opinion”, você fala sobre a irresponsabilidade de se considerar o texto sem que se pense o contexto do autor, sua educação, suas visões: tudo isso é fundamental e faz parte que lemos, de forma que dificilmente se atinge uma total objetividade no texto. O que podemos fazer para sermos – além de autores – leitores mais responsáveis?

VN: As pessoas tem lido cada vez mais sobre mídia nos Estados Unidos e considero isso um bom caminho. Uma coisa fundamental é que aprendamos a pensar de maneira independente e a ser céticos em relação a autoridade ou suposta objetividade do que lemos. É bom que se defendam e se protejam os pontos de vistas das minorias também. É bom que se reconheça que ninguém (incluindo eu mesmo) tem todas as respostas.

Renato Nunes Dias é mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

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Categorias: Sociedade

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