Marina paz e amor: (ingênuo) sonho para 2014

(Foto: Thays Cabette)

(Foto: Thays Cabette)

Quando perguntada sobre o motivo de sua filiação ao PSB e parceria com Eduardo Campos, Marina Silva respondeu de forma clara: estava cansada do toma-lá-dá-cá da política brasileira, representada aí, principalmente pelos dois últimos partidos na presidência, PT e PSDB. Eles estariam envolvidos sobremaneira com partidos e pessoas que estariam contaminados com interesses escusos ou mesmo anti-republicanos, o que os impediu, apesar de alguns avanços, de se atingir melhoras significativas para a população brasileira. Marina fez acusação com perfeita ironia: “o sociólogo não fez a reforma política e o operário não fez a reforma trabalhista”[1].

Esse discurso pode ser explicado de suas formas: a primeira e mais óbvia é a tentativa da candidata de diferenciar-se dos outros, isto é, precisa dizer que é melhor que o resto, apresentando-se como “o novo”, a alternativa, etc.; a segunda, é a falsidade, pois todos sabem, inclusive a própria Marina Silva, que sozinho não se governa e caso ela ganhe, terá, necessariamente que negociar com outros partidos e montar sua base de apoio. Mas o problema é saber: caso ganhe, com quem Marina governará? PSDB? PT? Ambos? PMDB ficaria de fora? Por enquanto qualquer resposta é incerta.

Ora, não há necessidade de ser bem entendido em política brasileira para saber que por aqui Presidentes não governam sozinhos: ou se monta uma coalizão com margem para que se aprovem seus programas ou se poderá incorrer em sérios riscos. O marajá Fernando Collor que o diga!

É claro que as coalizões até hoje formadas merecem críticas. A ideia franciscana de que é “dando que se recebe” é quase um imperativo da política nacional e quando citada, geralmente se alude ao fato de que os bons resultados da estabilidade da inflação com FHC e dos programas sociais de Lula, teriam ocorrido às custas de se ceder a vários desejos da base que usara e usou seu voto como moeda de troca para apoiar tais programas.

Por outro lado, tem-se que creditar às coalizões presidenciais o fato delas unirem os partidos e é nisso que a possível candidata terá que pensar.

Vale lembrar que Partidos são organizações de pessoas que se juntam para conquistar o poder. Quando conquistam, precisam governar, o que é feito por distribuição de cargos entre aqueles que possam oferecer apoio. Isso não é novidade, mas sim um equilíbrio na política de qualquer país democrático, já que outros regimes se impõem pela força. Como o próprio nome diz, partido é parte, por isso ele divide. Porém, nos Governos de Coalizão – como é o caso do Brasil – existe a junção de várias partes, as mais diversas, vale dizer. (Não por outra razão, incomodou muito a foto de Lula, Haddad e Maluf em 2013, por exemplo).

O toma-lá-dá-cá é inevitável na política. Entende-lo de maneira estigmatizada é fechar os olhos para a resolução pacífica de conflitos que só foram enfrentados nas democracias e, mais especificamente, para o fato de que governos precisam governar e, para isso, precisam de apoio. A questão a ser resolvida é: com quem governar?

Supondo que a chapa Marina/Campos vença, a disputa entre PSDB e PT seria posta em segundo plano pela primeira vez desde 1995. Com isso haveria a chance de se formar uma coalizão no sentido de se evitar figuras carimbadas como Sarney, Collor, Cabral, Renan Calheiros, Kátia Abreu, Maluf, Kassab, Caiado, Feliciano e tantos outros que tem apoiado os dois partidos.

Como se poderia fazer isto? Bem, será que PSB, PT, PSDB, PDT (talvez com mais alguns outros pequenos, como PPS, PCdoB, PV…) não poderiam fazer uma boa coalizão para um bom governo?

Inocência deste autor a parte, houve momentos em que parte disso ficou perto de se realizar. O exemplo mais citado é o do caso das eleições presidenciais de 1989, quando Mário Covas discursou a favor de Lula, contra Collor. De lá para cá muita coisa aconteceu entre os dois partidos.

Há outros dois exemplos, ambos de distanciamento, no livro A Arte da Política do ex Presidente Fernando Henrique Cardoso: o autor diz que recebeu José Dirceu e Lula em seu apartamento certa vez para explicar a Unidade Real de Valor (URV), parte do Plano Real, com vistas a receber apoio dos trabalhadores, mas não conseguiu; o outro exemplo foi de quando Lula montava seu governo da primeira vez que se elegera e havia escolhido o tucano Henrique Meirelles, então eleito deputado por Goiás, para o BC. De acordo com FHC, ele recebeu telefonema de Lula, em que o petista disse: “O presidente do BC vai ser um tucano, seu amigo”. Lula, em seguida, passou o telefone para Meirelles, felicitado por FHC e, em seguida, sentenciado, “você terá de renunciar ao mandato e se afastar do PSDB”. Com a crença de que o BC precisava de alguém neutro e que deputados do partido não deviam estar em governo oposto, Fernando Henrique evitou o que poderia ser a semente de uma coalizão dos tucanos com o PT.

Hoje soa estranho qualquer discurso de tentar juntar os dois. Acusações de lado a lado, como “não faço pacto com mensaleiros” por um lado ou “não me meto com gente que vende o Estado” de outro é mais do que comum em campanhas eleitorais. Mas, caso se transformem em coadjuvantes, com a chapa Marina/Campos na proa, será que não valeria a pena unir-se a dupla e evitar novas coalizações com aqueles que são mais criticados? Por para fora do governo, enfim, aqueles de quem foram “reféns” nos últimos governos? Se a resposta positiva parece impossível, se não ilusória, tal chance ficará mais longe ainda se Marina Silva continuar dizendo que negociação e troca de apoio político significa se vender.


[1] Ver http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,o-sociologo-nao-fez-a-reforma-politica-e-o-operario-nao-fez-a-trabalhista-diz-marina,1080499,0.htm.

Gabriel Madeira é formado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Ciência Política (Mestrado) da FFLCH e assistente de pesquisa do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisa sobre o Congresso Nacional, com foco na Comissão Mista de Orçamento.

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Categorias: Política

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