Os Black Bloc e a desconstrução do Movimento: um relato

Depois do ato da última terça-feira, fica mais claro que os Black Bloc prestam um verdadeiro desserviço à luta popular no Brasil.

No dia 15 de outubro de 2013, dia do Professor, estudantes, professores e funcionários de instituições educacionais saíram às ruas na capital paulista. Motivados principalmente pelo apoio à luta dos educadores no Rio de Janeiro e às lutas que seguem na USP e na Unicamp – ambas com suas reitorias ocupadas há semanas -, os manifestantes reivindicavam o voto direto para reitor, cotas raciais e sociais, melhores condições de trabalho para professores e funcionários da rede pública, mais políticas de permanência estudantil e contra a presença da Polícia Militar nos campi.

Participei da manifestação, que saiu às 18h do Largo da Batata rumando ao Palácio dos Bandeirantes. O ato estava bonito, cheio e organizado, além de ter sido um saudável exercício de unidade da esquerda, pois ali se encontravam dezenas de organizações representantes das mais diversas correntes políticas.

À frente da vanguarda organizada do protesto – que unificou as baterias e megafones dos diferentes coletivos -, se colocavam, talvez por algum fetiche de serem vanguarda de si mesmos, aqueles que já passaram a integrar o cotidiano nas manifestações: os Black Bloc.

Não me proponho aqui a debater a fundo suas ideologias e estratégias. E já desde as Jornadas de junho sou crítico à tática, não pela radicalidade em si, mas por suas consequências negativas sobre a imagem dos movimentos, patente na prática individualista, que ocorre à revelia dos milhares de manifestantes que se colocam nas ruas. De toda forma, apesar das divergências, sempre considerei os Black Bloc legítimos companheiros de luta. Porém, o que presenciei nesse dia fez com que surgisse um desejo sincero de que cada um deles tivesse ficado em casa, ou ido para bem longe dali fazer o que acham que devem fazer.

A passeata seguia tranquila já havia algum tempo, quando, após dobrar uma esquina, ficou quase meia hora parada devido a uma confusão. Achando que aquela curva era feita de forma a tentar ultrapassar o bloco mascarado, alguns dentre os encapuzados começaram a atacar os próprios manifestantes com sacos de lixo e garrafas plásticas – numa atitude, no mínimo, infantil.

E assim, seguiram-se quase trinta minutos de tensão e empurra-empurra, muitos deles batendo boca com os organizadores do protesto. Para a satisfação da Grande Mídia, é claro: seus repórteres praticamente salivavam ao registrar o conflito entre os próprios ativistas.

Durante o impasse, somei ao cordão frontal que os separava do grosso dos manifestantes, para evitar maiores conflitos, enquanto ouvia da massa dos estudantes palavras de ordem que pediam unidade e tentavam relembrar quem era o objeto comum da manifestação: o Governo do Estado de São Paulo.

Enfim, a manifestação seguiu. Ao chegar à frente de uma concessionária, os Black Bloc atacaram. É necessário que se diga que a questão não são as concessionárias ou bancos: não fossem cobertos por grandes planos de seguro, os danos causados pelos militantes de preto não chegariam nem mesmo a arranhar seus infindáveis lucros. Porém, ressalto: a tática, no estágio atual de coisas, é equivocada, pois em nada dialoga com o povo e dá à mídia um prato cheio, que abafa o debate de mérito pelo qual, para começo de conversa, todos estavam ali.

(E que conste: até esse momento, os centenas de PMs que escoltavam o ato assistiram de braços cruzados tais atitudes).

O pior, porém, veio alguns minutos após a manifestação ter ocupado um sentido da Marginal Pinheiros. É difícil precisar como tudo começou. Da percepção que tive, estando praticamente no meio do bloco negro, me pareceu um ataque gratuito por parte dos integrantes do mesmo: dezenas deles atirando pedras nos policiais. Alguns colegas, porém, me contestaram, dizendo que o bloco agiu em defesa de um companheiro que foi agredido ao tentar ocupar a outra via da marginal, o que me parece bastante possível.

O que importa é que, seja por um surto de violência, ou por um ímpeto arbitrário de ocupar com apenas 4 ou 5 pessoas um dos sentidos de uma das maiores vias da cidade de São Paulo, o que veio em resposta às pedras era facilmente previsível: uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo que, simplesmente, decretou a falência de um ato organizado, unificado e radicalizado. Por conta de tais ações, milhares foram agredidos e se dispersaram quando ainda estavam mais de cinco quilômetros distantes do Palácio dos Bandeirantes, seu destino final. Geraldo Alckmin agradece.

E foi assim que os Black Bloc prestaram, nessa noite, um grande serviço à burguesia paulista e a seus governantes, não contendo sua ânsia e atuando de forma desorganizada, antidemocrática, e, diga-se, pouco inteligente, ainda por cima, porque o ato não estava nem na metade do caminho quando decidiram confrontar a polícia, desorganizando a luta popular. (Vale a observação, claro, de que nunca os vemos marcando seus próprios protestos, tendo o trabalho de organizá-los; só fazem pegar carona nos atos por aí para se protegerem com a massa).

Por fim, não posso deixar de fazer meus votos de que tais atitudes não se repitam no próximo ato, já marcado para segunda-feira da semana que vem, e de fazer aqui a seguinte pergunta aos Black Bloc: de que lado vocês sambam, companheiros?

Este relato é uma contribuição externa de Rodrigo Zalcberg

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Categorias: Sociedade

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um comentário em “Os Black Bloc e a desconstrução do Movimento: um relato”

  1. Feliciano Cordeiro
    20/10 às 23:10 #

    Face o seu relato, Rodrigo, pergunto, quem aí é esquerda, quem é direita, você pode responder?

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