Malala: a luta pelo saber

Malala em evento da Iniciativa Global pela Educação, em setembro. (Foto: UNIC)

Malala em evento da Iniciativa Global pela Educação, em setembro. (Foto: UNIC)

Noites em claro, devido às explosões e bombas; gritos; rádios noticiando mais um dia de extrema violência e ameaçando, por nomes, “rebeldes” que lutam contra um regime imposto de forma ditatorial; angústia e resignação. Em meio ao caos, o medo tende a reinar e apagar a voz de um povo. Entretanto, a História sempre se fez valer de bravas personalidades, que lutam com audácia e coragem para defender seus ideais, impondo a sua voz a favor da parcela amedrontada. Uma atual referência é a jovem ativista paquistanesa, que, tem, amiúde, aparecido na mídia internacional como símbolo de esperança às crianças que vivem em extrema pobreza e são banidas do sistema educacional.

Malala Yousafzai, com apenas 16 anos, discursa com a eloquência e a vivacidade de uma menina-adulta, que passou a vida inteira lutando pelo direito de meninas paquistanesas terem acesso ao ambiente escolar, pois acredita que a educação é a única forma de lutar a favor da sociedade igualitária entre homens e mulheres, contrária ao regime Talibã.

O Talibã é um movimento político e militar que surgiu em 1994, formado por grupos de resistência contra a ocupação soviética no Afeganistão. Difundiu-se pelo Paquistão, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. O movimento visa à criação de um Estado teocrático, recuperando os preceitos da sociedade islâmica e seguindo rigorosamente os ensinamentos do Alcorão, com a imposição da sharia, a lei islâmica. Segundo o regime, as mulheres são proibidas de trabalhar, devendo ficar em casa para cuidar de suas famílias, por isso são impedidas de frequentar o ambiente escolar. Além disso, não podem sair de casa sem acompanhantes homens e devem usar as Burqas – uma espécie de capuz que escondem seus cabelos – enquanto, por sua vez, os homens não podem se barbear; as mulheres são proibidas, até mesmo, de frequentar hospitais públicos para não serem tratadas por médicos ou enfermeiros homens. Sem mencionar a aversão do regime à cultura ocidental.

A luta de Malala começou cedo, estimulada por seu pai, Ziaddin Yousafzai, um poeta, ativista educacional e proprietário de escola, que sempre a encorajou a seguir a carreira política.

Em 2008, com 11 anos, recebeu o convite – por intermédio de seu pai – de escrever  em um blog para a BBC Urdu sobre o seu cotidiano, medos e pensamentos durante a guerra entre paquistaneses e talibãs, na cidade de Mingora, no Vale do Swat, onde vivia. Sobre o codinome de Gul Makai, ressaltava o medo de ser obrigada a parar os estudos, pois os talibãs forçavam o encerramento das atividades escolares para as meninas. O blog nomeado Diary of a Pakistani Schoolgirl entrou ao ar em 03 de janeiro de 2009, e apesar de durar poucos meses, alcançou grande notoriedade internacional.

Em 2009, o repórter Adam B. Ellick, do New York Times, gravou um documentário sobre sua vida e de sua família, em meio à crise da guerra em seu país. Naquela época, sua cidade, Mingora, foi evacuada e ela foi obrigada a morar com parentes na área rural, enquanto seu pai foi para Peshawar para protestar e buscar apoio.

Tanto ela como seu pai foram alcançando reconhecimento e encorajamento internacional, pois através do documentário de Ellick, começaram a aparecer em entrevistas e noticiários defendendo a educação feminina. Além disso, no final de 2009, sua identidade  no blog BBC Urdu foi revelada, o que aumentou a sua evidência na mídia.

Em 2011, foi nomeada ao prêmio International Children’s Peace of Prize, na Holanda, e recebeu o prêmio National Youth Peace Prize, no Paquistão. Em 2012, começou a criar a Fundação Malala, que incentivaria as meninas pobres a frequentar as escolas no seu país.

Mas, quanto mais notória se tornava, mais perigo e ameaças sofria pelos talibãs. Em 9 de outubro de 2012, sofreu um atentado no ônibus no caminho da escola para sua casa. Um talibã mascarado atirou em sua cabeça e a bala percorreu o pescoço, alojando-se no ombro. Foi levada a um hospital militar em Peshawar, onde fez uma cirurgia de remoção da bala e, com a situação um pouco mais estabilizada, viajou para o Reino Unido para se tratar no Queen Elizabeth Hospital Birmingaham, onde recebeu alta no dia 03 de janeiro de 2013.

O que poderia ser um triste fim de uma grande ativista, para Malala foi um recomeço. O atentado trouxe grande repercussão e repúdio não somente por ativistas e paquistaneses descontentes, mas por pessoas do mundo todo, incluindo grandes celebridades e formadores de opinião, como o presidente Barack Obama, o Gordon Brown – ex-primeiro-ministro britânico –, e a atriz Angelina Jolie, que doou U$200.000 para a Fundação Malala.

Vale ressaltar que o regime talibã é considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos, União Europeia e Rússia, por causa de sua aliança com a organização Al Qaeda, fundada por Osama Bin Laden.  E o fato de os norte-americanos apoiarem e defenderem a causa de Yousafzai tem tanto caráter político, como social.

A recuperação de Malala foi completa – não sofreu danos cerebrais ou motores –, e, mesmo não podendo voltar a seu país, onde continua sofrendo fortes ameaças, não se deixou abalar pelas represálias e continua a sua luta, de forma pacífica.

“Os livros e as canetas são as nossas armas mais poderosas. Um livro e uma caneta podem mudar o mundo”, declarou Malala em conferência a ONU, considerando que “os extremistas continuam a ter medo dos livros”.

Além da Fundação Malala, existe uma petição em seu nome criada pelas Nações Unidas, já assinada por 3 milhões de pessoas, que objetiva o acesso à educação primária para todas as crianças no mundo.

Em 2013, foi eleita pela revista Time como “Uma das 100 pessoas mais influentes do mundo”, recebeu o Prêmio Sakharov do Europarlamento, lançou um livro biográfico “I am Malala”, além de ser a pessoa mais jovem indicada a receber o prêmio Nobel pela Paz.

O que para muitos parecia o impossível, essa jovem mulher provou não depender idade, sexo ou etnia. Se depender de Malala, e outras como ela, em um futuro próximo, a situação das mulheres paquistanesas sofrerá mudanças positivas.

O texto é uma contribuição externa de Caroline Vapsys.

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Categorias: Mundo

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