Acordos de Paz na Colômbia: um ano do início das negociações

Manifestação contra as FARC em Bogotá (Foto: Tolexine)

Manifestação contra as FARC em Bogotá (Foto: Tolexine)

No último 5 de outubro, completou-se um ano do início dos diálogos de paz entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o governo colombiano, liderado pelo presidente Juan Manuel Santos. Com a intermediação de Cuba e Noruega, e mais recentemente com uma participação coadjuvante, mas importante, do Uruguai e seu presidente Pepe Mujica, os diálogos de paz já avançaram em três dos seis pontos principais, sendo que o último deles é o compromisso de cumprir com o acordo, para ambos os lados. Os pontos são:

1- Política de desenvolvimento agrário integral – Onde se discute o acesso e o uso da terra (em particular as improdutivas),  a proteção de zonas de reserva ambiental, a função social dessas terras o que, de forma geral, poderia ser uma discussão também relacionada à reforma agrária em seus âmbitos econômicos e sociais;

2- Participação política no país e a criação de mecanismos democráticos de participação direta e exercício da oposição;

3- Fim definitivo do conflito como um processo integral e simultâneo que parte do cessar fogo e do fim das hostilidades de ambos os lados;

4- Solução do problema das drogas ilícitas, incluindo a questão da produção e do narcotráfico;

5- “Vítimas” – O quinto ponto e mais sucinto é chamado de “vítimas”, e de forma muito breve define dois eixos, “direitos humanos” e “verdade”,O que deixa a entender que um processo de justiça de transição estaria por vir na Colômbia, e o modelo a ser adotado deve fazer parte das discussões.

6 – Por fim, o compromisso de ambas as partes com a implementação, verificação e referendo de todos os pontos acordados anteriormente.

Em 2012, Santos e as Farc acordaram iniciar as negociações para colocar fim a um largo processo conflitivo na Colombia. Com um caráter mais “pragmático”, dentre os pontos de discussão das negociações, não estão questões que já sabidamente seriam impossíveis de se chegar a um acordo, como o modelo de estado ou econômico/produtivo adotado pelo país.

O governo colombiano, em presidências anteriores à de Santos, optou pela via da repressão, na caça às já há muito fragmentadas lideranças. As FARC não são mais, em termos organizacionais, uma instituição robusta. Tampouco se sabe exatamente quem são suas lideranças – à exceção daqueles que participam do processo de paz, e os muito emblemáticos como Timochenko e Iván Márquez – e que tipo de atividade estão desenvolvendo, e se continuam relacionadas ou não ao narcotráfico.

É difícil precisar se as FARC ainda tem um projeto político para o país. A ligação da organização com o narcotráfico ainda não está esclarecida e nem bem delineada. O fato é que a sua existência ainda é fonte de conflito com o Estado, e a ressalva é que o crescimento das atividades do narcotráfico no país, e o envolvimento pouco esclarecido entre as partes não-governamentais nesse processo obscurecem ainda mais a questão toda.

Além disso, a questão é relevantíssima em pleitos eleitorais no país, momentos em que os candidatos são sempre obrigados a externar suas posições sobre as FARC, assim, polarizando e centralizando o debate político-eleitoral em torno dessa questão.  Talvez o processo de paz colombiano tenha no seu quinto eixo – aquele cuja centralidade é deixada de lada por muitos que analisam o processo de paz no país – o componente fundamental para a reconciliação da sociedade colombiana em torno de uma cultura política que não mais se baseie na clivagem “é contra” ou “é a favor” das FARC.

O dualismo por si só não é capaz de abarcar nem a complexidade do conflito nem de contribuir para o melhor entendimento sobre ele, ao mesmo tempo em que encobre a essência das disputas políticas no país, deveras desigual socioeconomicamente. Por isso, entender e resgatar a memória e a verdade sobre os ocorridos, tranquilizando familiares com a memória coletiva de sua sociedade, entendendo de onde partiram os atos de violência e reparando os que sofreram, deve ser essencial para a superação do conflito sem que deixe feridas abertas, de forma a incorporar na história da nação colombiana – sempre muito cheia de embates por grupos políticos, desde sua independência – a reconciliação. Mas esse processo todo acaba colocando em xeque a capacidade das partes em serem céleres nas negociações. Por isso mesmo, devemos esperar mais um bom tempo até seu desfecho.

Juliana Moura Bueno Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, seus temas de pesquisa se relacionam ao estudo de comportamento eleitoral, partidos, eleições, política brasileira e classes sociais.

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Categorias: Mundo

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um comentário em “Acordos de Paz na Colômbia: um ano do início das negociações”

  1. 16/10 às 18:11 #

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