Os mercados financeiros ganham o Nobel

Robert Shiller (Foto: WEF)

Robert Shiller (Foto: WEF)

O Prémio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2013 foi concedido pela Real Academia Sueca de Ciências aos norte-americanos Eugene F. Fama, Lars Peter Hansen e Robert J. Shiller, sendo os dois primeiros pesquisadores da University of Chicago e o último da Yale University. Antes de analisar o trabalho do trio, é importante destacar que o Nobel já havia sido concedido, em 2011, para uma dupla (Sargent/Sims) cujos trabalhos versavam sobre o papel das expectativas na política econômica com estimações macroeconométricas. No caso de Hansen[1], ele está mais ligado ao desenvolvimento de um método econométrico que lida com séries de tempo para a análise empírica daquilo que foi teorizado pelos outros dois laureados.

O motivo do Nobel de 2013 anunciado pelos suecos foi a “análise empírica dos preços de ativos”. De maneira geral, a conclusão dos trabalhos independentes dos três foi que não há como fazer previsões econométricas confiáveis sobre os preços de ações e títulos públicos no curto prazo (a chamada hipótese do passeio aleatório), porém é possível determinar o padrão de comportamento desses ativos no longo prazo, indicando tendências de baixa ou de alta.

Além de chegarem à mesma conclusão, os três partiram das mesmas hipóteses essenciais nos modelos que usaram para estimar os preços dos ativos: nos mercados financeiros a demanda e oferta sempre se igualam, o que implica dizer que quaisquer informações novas são imediatamente precificadas pelos ativos – o que se coaduna com a teoria das expectativas racionais, de Thomas Sargent. Uma hipótese forte que foi flexibilizada por Schiller é a que assume que não há assimetrias de informação na economia, algo difícil de ser constatado na prática, uma vez que nem sempre o que as empresas registram em seus livros contábeis reflete a realidade, muito menos os diferentes agentes (empresas, investidores, bancos e governo) possuem as mesmas informações. Ademais, esta hipótese preconiza que os custos de transação – os custos para que os preços reflitam toda a informação disponível – são zero. Constatando que pode haver falhas de mercado inerentes a ele próprio, conclui-se que os mercados nem sempre são eficientes de maneira mais geral.

A chamada hipótese dos mercados eficientes está por trás dessas pesquisas. Basicamente ela implica que os investidores sempre estão à procura de aplicações que rendam acima do mercado, sendo que tal competição se dá de uma forma que todas as novas informações sobre os ativos são incorporadas em seus preços. Como dito anteriormente, a hipótese de que a demanda pelos ativos sempre é igual à oferta implica que os retornos acima da média serão anulados por retornos abaixo da média, equilibrando o mercado. Paul Samuelson, outro prêmio Nobel (mas por outra razão), fez um importante acréscimo a esta hipótese ao dizer que a eficiência dos mercados financeiros apenas se daria a nível micro (para ações específicas), mas não a nível macro (para o mercado como um todo).

Duas constatações tomadas hoje quase como verdades absolutas foram primeiramente analisadas pelo trio:

  1. Quando a razão preço/dividendos de uma ação está acima do seu equilíbrio (calculado através de uma análise do preço de mercado via valuation da ação dividido pelos dividendos dela, que são o valor presente dos lucros esperados), ela tende a cair e vice-versa;
  2. Altos retornos futuros são uma compensação para ativos com demasiado risco, da mesma forma que o custo de reter um ativo de pouco risco é um retorno esperado menor.

Uma implicação prática dessa pesquisa é o surgimento dos fundos de índice, que são um subtipo dos fundos mútuos de investimento, que são fundos que investem em uma variedade de ativos com um determinado perfil de risco de modo a reduzir o risco e maximizar o rendimento da carteira do cliente. O que diferencia os fundos de índice é que, independentemente das condições de mercado, eles investem em ativos que replicam os movimentos de índices do mercado financeiro, por exemplo, o índice Bovespa (IBOV), S&P 500 (SPX), ou então os diferentes índices da Bolsa de Nova York (NASDAQ) conforme os setores das empresas. Ou seja, a grande aposta desses fundos é no desempenho de longo prazo desses índices, e não no vaivém das bolsas – o que implica a importância maior do pagamento de dividendos para os acionistas ao invés do ganho obtido através da compra e venda de ações.

Em um aparte, o laureado Shiller, conhecido por suas previsões sobre o estouro da bolha imobiliária americana antes da crise de 2007-8, disse que o Brasil pode estar vivendo sua própria bolha, uma vez que os preços dos imóveis subiram irracionalmente nos últimos anos. Uma possível solução paliativa seria o financiamento governamental para a compra de imóveis, com taxas de juro abaixo do mercado, de modo a evitar calotes, além da garantia de existência de oferta habitacional, “de modo que o mercado seja sustentável[2]”.

As conclusões que se tiram de mais um Prêmio Nobel, é que muito ainda precisa ser estudado sobre o comportamento dos ativos financeiros e que nunca é prudente assumir que os mercados financeiros são eficientes: a prática sempre comprova o contrário, para o desespero de quem o tenta prever. Por fim, também é importante destacar os avanços nas técnicas econométricas relevantes ao estudo de tais mercados e a importância crescente da teoria comportamental na economia, e não só em sua parte financeira.


[1] Hansen talvez também tenha sido lembrado pela academia pelas suas contribuições à teoria econométrica, como a introdução do método generalizado dos momentos.

[2] http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE97U02Y20130831

André Castro é formado em Economia pela FEA-USP, tem pós-graduação em Economia pelo Birkbeck College da Universidade de Londres e é mestrando em Economia Internacional pela University of Manchester

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Categorias: Economia

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