Marina entre a cruz e a espada

Marina Silva concede entrevista. (Foto Everton Amaro)

Marina Silva concede entrevista. (Foto Everton Amaro)

A recente recusa do Tribunal Superior Eleitoral em conceder o registro ao partido Rede Sustentabilidade introduziu novos elementos no cenário da corrida eleitoral para 2014. Na sexta-feira, Juliana Bueno apontou aqui no Gusmão a possibilidade de Marina Silva ficar de fora da disputa eleitoral em virtude da recusa do TSE. Cortejada por vários partidos, a ex-senadora anunciou no sábado a tarde, em coletiva de imprensa realizada em Brasília, sua decisão de se juntar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Com isso, engrossa a candidatura de Eduardo Campos, atual governador de Pernambuco e presidente nacional do partido. No atual estado de coisas, a disputa estaria então entre três nomes principais: Dilma Rousseff (PT), potencial candidata à reeleição, senador Aécio Neves (PSDB-MG) e uma dobradinha Campos-Marina, numa chapa ainda sem definição sobre candidato e vice.

Os motivos relacionados à negação do registro foram contestados logos após a emissão do parecer. A lentidão dos cartórios eleitorais em certificar as assinaturas e a recusa de mais de 95 mil delas levantaram questionamentos sobre a política e, sobretudo, politicagem em torno da não concessão. Ademais, geraram comparação e, sobretudo, desconfiança em relação à celeridade com que outros partidos – como PSD (Partido Social Democrático) de Gilberto Kassab – conseguiram viabilizar seus trâmites jurídicos. Se a Rede tem ética, mobilização social e conteúdo programático, como afirmou o TSE, seu não registro, inviabilizado por um processo burocrático que não favorece a tomada de decisões, deixou poucas opções a Marina Silva.

Nas mídias sociais, o descontentamento com a decisão da ex-senadora balizou a reação de alguns analistas e também de possíveis eleitores. Se o discurso de Marina e apoiadores antes era de que “não havia plano B” sobre os destinos da Rede, pautado numa “nova maneira de se fazer política”, a decisão e o repentino “plano C de Campos” frustrou muitos e pareceu, se não oportunismo, algo na contramão daquilo que se pregava. Em tese, a migração para o partido de Campos pode gerar perda ou pulverização de eleitores comprometidos com essa nova maneira de fazer política.

Se a decisão de Marina Silva não foi a melhor possível, pode ser encarada como a decisão possível dentro das condições que se apresentavam. Dentre as características mais importantes da política há o timing: a necessidade de tomar decisões em cenários adversos e a capacidade de liderança. O discurso de Marina Silva, calcado em valores como ética, transparência e sustentabilidade, vem ao encontro dos anseios de uma parte da população que demanda mais participação, compartilha o sentimento de não se sentir representada pelas figuras atualmente eleitas e que, em grande parte, expressou seus descontentamentos nos protestos de junho.

Se o que os eleitores demandam é justamente a necessidade de uma transformação em direção a esses valores, a decisão de Marina Silva evidencia a decisão de um ator político racional, ciente de que a melhor decisão é aquela viável e que “o tempo político” é tão fundamental para o jogo político quanto a crença e a defesa de determinados valores.

Considerados os paradoxos e a estratégia, a decisão apresenta, ao menos, a possibilidade de desestabilizar a tradicional polarização entre PT-PSDB no cenário eleitoral para 2014. No mínimo, ganham os eleitores ao terem o debate ampliado e mais opções.

Ao fim e ao cabo, Marina estava entre a cruz e a espada. Se optasse por não se filiar a nenhum partido existente e se furtasse a disputar as eleições de 2014, seria acusada de egoísmo, de desprezar a mobilização de milhões de pessoas em torno da constituição da Rede e de colocar suas posições pessoais acima dos princípios de liderança e de república que o país necessita. Esperar quase cinco anos para poder concorrer ao cargo majoritário seria arriscar que a janela de oportunidade se fechasse até lá. Ao se filiar ao PSB, optou por correr o risco de ser acusada de traição e de ter um discurso descolado da própria prática. Pagará para ver.

Se Marina será uma boa política, caso venha a ser eleita, o tempo dirá. É cedo ainda para prever o peso de sua candidatura e de seus quase 16% de intenções de voto na chapa que aparentemente se dispõe a compor, e seus desdobramentos no pleito que acontecerá em 5 de outubro do próximo ano.

Nesse momento de pré-campanha, a ampliação do debate e a potencial despolarização da disputa é benéfica à sociedade, a despeito das siglas nas quais o debate possa se acomodar.

Mônica Sodré Pires é cientista política e atual doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalha com educação política e desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas, regimes internacionais e atividades ilícitas transnacionais.

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Categorias: Política

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