Os pastores que são deputados

À direita, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) durante seminário sobre os desafios da sociedade pós-moderna pela valorização da vida e fortalecimento da família. Foto: Lia de Paula/Agência Senado

À direita, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) durante seminário sobre os desafios da sociedade pós-moderna pela valorização da vida e fortalecimento da família. Foto: Lia de Paula/Agência Senado

A atenção dada ao Pastor/Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) por seu posicionamento sobre vários temas candentes despertou certa estranheza entre os setores mais progressistas da sociedade brasileira.

Longe de se tratar de uma novidade, a presença de religiosos no Congresso é de longa data e, como veremos, vem crescendo, mesmo que de maneira tímida. Para entender o papel desses políticos, é preciso se perguntar pelo menos uma coisa: qual seu número no Congresso?

Os temas de Política & Religião e os “Pastores”

“Política e religião não se discute” talvez seja o pior dito popular brasileiro: se não for o pior, é, pelo menos, o mais inocente. Não é novidade o fato de que política e religião estão imbricadas. No Brasil imperial, por exemplo, a Igreja era parte do Estado e os padres, funcionários públicos. Se nos dias de hoje podem-se ver muitos pastores envolvidos na arena parlamentar, não se pode tomar isso como fato isolado.

Vejamos brevemente então, antes de falar do Brasil, o caso dos Estados Unidos.

Em um livro escrito no século XIX, o tão citado e respeitado Tocqueville, em A Democracia na América, sobre os Estados Unidos nos disse que “A religião, que entre os americanos nunca se mistura (…) no governo (…), deve, pois, ser considerada como a primeira de suas instituições políticas (…)”. E complementa em outra parte: “Ao lado de cada religião, encontra-se uma opinião política que, por afinidade, é ligada a ela. (…) Desde o princípio, a política e a religião acharam-se de acordo, e desde então nunca deixaram de estar”.

Sabe-se que foi justamente nos Estados Unidos que surgiram os “televangelistas”, ou seja, pastores que pregam ao vivo pela televisão – hoje tão famosos no Brasil, como Silas Malafaia, R. R. Soares, Edir Macedo e Valdomiro Santiago. E o envolvimento deles na política é notório. Ficaram famosas, por exemplo, as manifestações do pastor e republicano americano Pat Robertson que, além de desejar a morte do então Presidente venezuelano Hugo Chávez, disse que “fighting Muslims is just like fighting Nazis”[1].

Dados recentes sobre o caso brasileiro[2]

De todos os 2265 deputados que passaram pela Câmara Federal desde a Constituinte, 229 se autodeclaram pertencentes a alguma religião derivada do protestantismo (tais como evangélicos, neopentecostais, etc.), o que dá cerca de 10% do total. Ao longo do tempo, contudo, há uma tendência de crescimento. Durante os governos Sarney, Collor, Franco e FHC a porcentagem variou entre 8 e 9%, mas a partir de 2002 há um salto para 12%, atingindo 13,9% em 2006 e 14% em 2010. Se se quiser comparar com a população brasileira, os evangélicos são hoje cerca de 20 por cento da população, pouco mais do que o percentual de evangélicos na Câmara dos Deputados[3],

Os “pastores”

Ao longo do período analisado, foram 36 os deputados que se autodeclararam como pastores, ministros, bispos evangélicos, etc. Dentre eles apenas um deputado era de partido de esquerda (Pastor Francisco Olimpio, do PSB e da Assembleia de Deus de Recife, PE). Os demais se subdividem no PMDB, PDS, PRB, PDC, PR, PTB, PL, PP, DEM e PSL e dois sem partidos. Nove destes deputados são ou foram do estado de SP, 5 do RJ, 4 do RS, 3 de MG, 3 do CE, 2 do SE e BA, ES, GO, PE, RR e SC com 1 cada.

Importante frisar que os partidos que se distinguem pela adoção religiosa pela própria legenda não se destacam, como é caso do Partido Social Cristão, com 4 e o Partido Democrata Cristão, com 1.

Conclusão

O que se pode depreender dessas informações é que, embora haja certo estardalhaço sobre os evangélicos, por mais que apresentem leve crescimento num nos últimos anos, eles estão em desvantagem numérica. Isto se dá pelo menos no caso dos deputados, o que que não significa dizer que o papel desta “camada” social seja irrelevante, pois, como se pode notar nos casos de Marina Silva, Celso Russomano e outros, além do próprio Feliciano, existem pressões de vários lados para que haja defesa de interesses religiosos em arenas Legislativas e Executivas – que vão além dos televangelistas já citados.

Se sua ascensão parece notória, a esperança está na maioria de 66,2% da população que não concorda com votar em candidatos indicados pelos “pastores” e de 57,8%[4] que não concorda com candidatura destes para cargos políticos.


[1] Robertson: Fighting Muslims Is Just Like Fighting Nazis – Veja mais em: http://www.rightwingwatch.org/content/robertson-fighting-muslims-just-fighting-nazis#sthash.yZ8jsHz6.dpuf

[2] Os dados e informações são do texto “Quem são os deputados brasileiros? Um balanço do perfil biográfico de 1986 a 2012” de Rafael Moreira Dardaque Mucinhato e Fabricio Vasselai, ainda não publicado e do banco de dados sobre a biografia dos parlamentares brasileiros em confecção no Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP.

[3] Veja o estudo “Mapa das Religiões”, no site: http://www.cps.fgv.br/cps/religiao/

[4] As duas informações são da pesquisa CNT/MDA, realizado em setembro de 2013. Disponível no site http://www.cnt.org.br/Paginas/Pesquisas_Detalhes.aspx?p=8

Gabriel Madeira é formado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atualmente é aluno do curso de Pós-Graduação em Ciência Política (Mestrado) da FFLCH e assistente de pesquisa do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisa sobre o Congresso Nacional, com foco na Comissão Mista de Orçamento.

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Categorias: Política

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