China: novas reformas, novas dinâmicas

Xangai (Foto: Manu Cornet)

Xangai (Foto: Manu Cornet)

A segunda maior economia do mundo tomou uma decisão histórica neste último domingo. A China concluiu a abertura econômica da Zona de Livre Comércio em Xangai, sendo considerada a maior reforma de peso das últimas décadas do país.

As chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) da China remontam à década de 70, e compõe a estratégia do governo de então de operacionalizar um mecanismo de abertura da economia chinesa. Essas zonas foram responsáveis pela modernização industrial da China, estabelecidas sob legislações mais flexíveis e redução de impostos. Com esta nova conjuntura, houve maior atração de investimentos estrangeiros e maior transferência de tecnologia para o país. As empresas estadunidenses e canadenses foram as que mais se aproveitaram das vantagens apresentadas pelas ZEEs. Todavia, estas vantagens vinham embutidas com algumas outras características únicas destas zonas: forte participação estatal chinesa; produção industrial diversificada; comprometimento com a infraestrutura; produção voltada fortemente para exportações; salários pagos dentro da zona deveriam ser superiores aos praticados no resto da China. Mas a isenção de impostos, juntamente com a abundante mão-de-obra baratíssima (mesmo sendo acima da média chinesa) tornava a proposta das ZEEs interessantíssimas para multinacionais.

As implicações das ZEEs foram imensamente impactantes para a cultura e a economia chinesa, porém, de certa maneira, o mundo todo foi impactado por esta mudança estrutural nacional chinesa. Não coincidentemente, foi também durante a década de 70 que houve uma grande mudança na Divisão Internacional do Trabalho, ocorrendo a expansão global de grandes empresas. Isto ajudou a levar diversos países subdesenvolvidos a se industrializarem, fazendo com que, mesmo que desigualmente, houvesse um avanço mundial.

Neste último domingo, a China abriu um novo conceito de zona de livre comércio. Situado na cidade de Xangai – o maior centro comercial e financeiro do país, e símbolo da pujança econômica da nação asiática -, esta zona será uma área de testes para o governo. Tendo como foco o setor de serviços, e não mais a produção industrial, terá como objetivo aprofundar as reformas orientadas para o mercado e estimular ainda mais o fortalecimento econômico, sendo um estímulo para fazer frente à diminuição do crescimento chinês registrado nos últimos anos.

Esta nova zona, que abrange 29 quilômetros quadrados, irá experimentar a convertibilidade da moeda iuan para dólares e as taxas de juros serão sujeitas ao mercado – práticas básicas para economias como o Brasil ou mesmo África do Sul, mas inovações financeiras para a economia do Partido Comunista. Segundo o próprio Conselho de Estado Chinês, estas são reformas fundamentais para o futuro modelo econômico da nação. Ainda outras inovações, como a não restrição de investimentos estrangeiros e a redução do controle em 18 setores distintos de serviços – incluindo finanças, navegação e até mesmo cultura. O resultado é a intenção de diversas grandes multinacionais se instalarem no local: o Citibank, a Microsoft e a Porsche são alguns exemplos de empresas que estão cotadas para se alocar.

O Brasil deve se ater ao exemplo da China, não ao que se refere à emulação nua e crua das táticas chinesas, mas às formas inovadoras na estratégia de impulsionar o crescimento e o avanço do país. Não devemos buscar ter uma zona econômica especial de serviços, mas necessitamos de inovações em diversos elos da cadeia produtiva e de serviços para deixarmos de ser o país do futuro e conquistar, definitivamente, nosso espaço no presente.

Assim como na década de 70, a China de hoje apresenta novas reformas que tem potencial de modificar a conjuntura mundial. Apenas a Zona de Livre Comércio de Xangai não mudará a forma que toda a China negocia, mas com toda a certeza fará com que novos processos emerjam, e estes podem apresentar uma nova dinâmica que afetará desde Pequim à Washington ou Brasilia.

Este texto é uma contribuição externa de Gabriel Dantas, que é graduado em Relações Internacionais pela UNESP e hoje é mestrando no mesmo curso no IRI-USP.  Trabalha com a temática de Segurança Internacional e é pesquisador pela Fapesp, focado em Tráfico Internacional de Pessoas.

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Categorias: Mundo

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