Caminhos obscuros da paz na Síria

Kerry e Lavrov – representantes do EUA e Rússia – em coletiva sobre a Síria (foto: US Government)

A crise na Síria teve origens na chamada “Primavera Árabe” em 2011, quando o povo saiu às ruas com o objetivo de derrubar Bashar Al Assad, que governa o país desde 2000, sucedendo seu pai que tomara o poder em 1970. Desde então, os manifestantes sofrem forte repressão do governo levando ao que hoje se entende como guerra civil.

Até agora é estimada pela ONU a morte de 100 mil pessoas, mas foi apenas o “cruzar da linha vermelha” de Assad que encaminhou a questão sobre a necessidade de intervenção externa sobre o conflito. O ataque por armas químicas, provavelmente por forças de Assad, matou 1.400 pessoas, colocando o conflito em um novo patamar, com critérios que nada tem a ver com o nível do sofrimento humano se comparado com as perdas geradas pelo conflito até então.

Prontamente após o ataque com gás sarin, os Estados Unidos mobilizaram recursos diplomáticos em busca de apoio a uma intervenção militar na Síria. Sem sucesso, Obama chegou a ameaçar repetir a postura adotada no caso do Iraque: intervir independente da aprovação do Conselho de Segurança da ONU. A partir de então, as discussões entre os Estados Unidos e Rússia ilustradas pelo discurso de Obama de 10 de setembro e pela resposta de Putin no NYtimes no dia 12 de setembro levantam uma série de argumentos baseados em valores e em causas humanitárias, afastando estas decisões do campo da política, onde elas pertencem.

Quando Obama diz “coisas terríveis acontecem em torno do mundo, e está além de nossa capacidade concertar tudo que está errado. Mas quando, com modesto esforço e risco, podemos impedir que crianças sejam mortas por gás, e da mesma forma deixar nossas crianças seguras no longo prazo, acredito que deveríamos agir” devemos desconfiar. Em primeiro lugar, os Estados Unidos têm interesses específicos na região, sobretudo no que diz respeito à contenção do projeto de armas nucleares no Irã. Além disso, há uma densa economia de guerra nos Estados Unidos que deve ser movimentada. E, por fim, está muito pouco claro se o interesse norte-americano é desmontar o arsenal químico de Assad ou derrubá-lo do poder.

A Rússia colocou-se contra uma intervenção afirmando que “Não importa quão pontual seja o alvo ou quão sofisticado sejam as armas, causalidades civis são inevitáveis, incluindo idosos e crianças, a quem a intervenção deveria proteger”. Tudo isso, obviamente, sem menção à relação de amizade entre a Rússia e o governo Assad e a influência que a Rússia exerce sobre o país.

No final de semana passado, os Estados Unidos e a Rússia acordaram sobre uma solução ao conflito na Síria. Assad deverá entregar dentro do prazo de uma semana informações sobre seu arsenal de armas químicas e aderir à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), comprometendo-se a destruir seu arsenal até 2014. Segundo Ban Ki-Moon, Secretário Geral da ONU, isto poderia significar o fim do horrível sofrimento aos sírios.

Este breve resumo da história deixa algumas questões importantes a serem discutidas: é necessária a intervenção externa para a resolução do conflito sírio? Como essa intervenção se daria? Quais são os motivos de insistência norte-americana e negação russa? De que forma um acordo sobre armas químicas substituiu os anseios à intervenção? Mais importante, a tomada de decisão está sendo motivada por inspirações e motivações humanitárias ou políticas?

Vem sendo discutidos os perigos de uma intervenção unilateral por parte dos Estados Unidos, que poderia gerar consequências semelhantes às dos casos do Iraque e do Afeganistão. Sem a aprovação da ONU, a legitimidade de Obama em agir militarmente sobre a Síria acabou duramente questionada.  Mas e se a ONU, por meio de seu Conselho de Segurança, a partir da decisão de cinco grandes potências mundiais (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Rússia), tivesse aprovado a proposta norte-americana, não haveria riscos, tampouco interesses políticos envolvidos? É interessante notar como o discurso da intervenção humanitária é trabalhado em termos técnicos, quando na verdade ela nada mais é que um processo de decisão política por parte dos interventores, até mesmo quando essa decisão se dá por meio da ONU.

A construção da paz por meio das intervenções da ONU busca, na realidade, uma paz muito específica: a chamada paz liberal, que estabelece uma determinada forma de governo, com um determinada política de mercado. Ela é estabelecida por meio da constituição de instituições e de um poder monitorado internacionalmente que deve estabelecer um marco regulatório que permita a governança da política aos moldes de uma democracia ocidental e da economia em termos liberais, muitas vezes condicionados a exigências do FMI ou do Banco Mundial. A paz liberal resulta, portanto, em instituições e marcos regulatórios construídos “a partir de fora” e que não atingem os indivíduos. A exemplo do que ocorreu no Iraque, há de fato pouca participação da sociedade local neste processo de construção de Estado. O contrato social que prevê o consenso entre a sociedade e o Estado muitas vezes não se consagra, sem muitas vezes responder às expectativas e às necessidades locais.

Com relação ao acordo contra armas químicas, não é possível que compreendamos as relações políticas puramente em termos jurídicos. Além de não impedir que Assad venha a repetir o ataque, de nenhuma forma este acordo poria fim à crise síria, tampouco à violência desmedida contra a população civil, independentemente dos meios empregados. Se a preocupação norte-americana fosse de fato com as perdas humanas geradas pelo conflito, seria impossível compreendermos por que um ataque que gerou 1,4% do total de mortes pelo conflito causaria tamanha mobilização ou de que forma um acordo desta natureza substituiria o projeto de intervenção humanitária sobre o conflito.

Os anseios pela intervenção no conflito sírio pode ser compreendido por uma soma de projeto civilizatório norte-americano, no sentido de influenciar o processo de reconstrução política e econômica daquele país, com interesses norte-americanos muito específicos na região, a considerar a posição de Israel sobre esse aspecto, que teme a derrubada de Assad. O mesmo pode-se dizer com relação à Rússia que, tendo o regime de Assad como grande aliado na região, teme as consequências da derrubada de seu governo, da presença norte-americana na região e o perfil de um possível futuro líder político sírio.

Embora levantem a retórica de proteção à segurança humana, é evidente a seletividade de onde e como intervir nas tantas crises que se passam no mundo. O ataque com armas químicas teve importância não somente pelas vidas que atingiu, mas pelo seu caráter exemplar, que sem a devida retaliação norte-americana, incentivaria outros países a fazer o mesmo –  como o Irã a desenvolver seu arsenal nuclear. Apesar do discurso humanitário, nunca podemos deixar de lado o fato de que estas decisões estão no campo da política e que contam com cálculos estratégicos dos países envolvidos, que levam em consideração o poder e a segurança de seus próprios Estados antes de tudo.

 —

Priscila Villela é formada em Relações Internacionais pela PUC-SP, mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisa o Tráfico de Drogas e Segurança Brasileira e Sul-Americana.

Tags:, ,

Categorias: Mundo

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: