Os EUA e seus 11 de Setembro

175460_195134510504168_154403587910594_677399_6623888_oHoje é 11 de setembro. Nós, d’ O Gusmão, nos questionamos sobre qual 11 de setembro deveríamos nos recordar e refletir. Optamos pelo 11 de setembro chileno. Também uma terça-feira, tal qual o 11 de setembro americano, contudo 38 anos antes de 2001: em 1973. O artigo de André Castro, que discorre brilhantemente sobre a situação econômica do governo Allende (que terminou há exatamente 40 anos e uma semana) e os desdobramentos posteriores após o golpe militar iniciado em 11 de setembro de 1973. Neste artigo, me presto a fazer um relato sobre os acontecimentos da época para que o leitor possa refletir sobre o 11 de setembro de 1973 que teve reflexos mais longos e mais cruéis do que aquele vivido pelo povo americano em 2001.

Em setembro de 1970, o Chile passou por eleições democráticas vencidas por Salvador Allende, da Unidade Popular Esquerdista. Antes disso, Allende já havia perdido três eleições presidenciais (em 1952, 1958 e 1964), sendo que a última delas fora vencida por Eduardo Frei, pertencente ao partido de direita Democrata Cristão, que contou com amplo apoio financeiro e publicitário da CIA americana. Com a vitória de Allende, iniciou-se um governo de caráter socialista. O interessante de seu governo é o fato de que o socialismo foi implantado sem revolução, de forma democrática e paulatina. O país passou por um amplo programa de nacionalização que foi desde o cobre, ferro e carvão até bancos e algumas empresas industriais e comerciais. Seguindo os principais democráticos, Allende não restringiu os meios de comunicação e manteve uma abertura diplomática e comercial com todos os países sem qualquer distinção ideológica[1]. Seus objetivos eram, antes de mais nada,  libertar o Chile do velho par oligarquia-imperialismo.

Allende estava certo do que fazia pelo Chile, mas os Estados Unidos não haviam de deixar que ele prosseguisse com um direcionamento político que ia contra os interesses americanos – especialmente em tempos de Guerra Fria. Em 14 de Setembro, logo após a vitória de Allende, Henry Kissinger, ministro das relações exteriores americanas (e confidente pessoal, diga-se de passagem) do então presidente Richard Nixon, em discurso público, questionou: “Não sei o porquê se assistir, sem fazer nada, um país se tornar comunista”. Parece que os interesses americanos desconsideram a vontade do povo chileno de colocar, por meio de eleições democráticas, Allende no poder. A partir de então, os Estados Unidos pediram que a CIA interviesse de maneira militarizada no país. O imperialismo americano, em associação com alguns setores da grande burguesia chilena, traçou planos claros de destruição da economia chilena (bem como o artigo do André nos relatou), que envolveram, dentre outras coisas, o desaparecimento de créditos e o envio ilegal de capitais ao exterior. Os EUA e a burguesia articularam greves por todo país e, em outubro de 1972, eclodiu uma série de greves em efeito dominó: primeiramente a dos caminhoneiros, seguida pela greve dos comerciários, dos transportes urbanos e dos hospitais particulares. O boicote não parou por aí e atravessou as fronteiras da cidade, se alastrando pelo campo. Com isso, na época, trezentas mil cabeças de gado foram contrabandeadas, cerca de dez milhões de litros de leite foram jogados nos rios para que não chegassem às casas das famílias carentes, a terra não foi semeada e a produção de alimentos caiu catastroficamente. Em pouco tempo, deparou-se com a escassez de alimentos nas grandes cidades. O governo de Allende encontrava resistências não apenas por parte da burguesia, mas também de fazendeiros e da classe média que viviam há anos em um ambiente tomado pela imprensa antissocialista. Como o governo Allende respeitava a liberdade dos meios de comunicação e de distribuição, estes acabaram se aproveitando para se colocar duramente contra a nova política econômica. Em uma situação caótica, o governo só não caiu no mesmo momento graças à mobilização popular que apoiava amplamente o governo de Allende.

Contrariando seus interesses econômicos e políticos com um governo socialista na América, os EUA não hesitaram em tomar medidas mais drásticas e traçar para o Chile o mesmo caminho que seus vizinhos já vinham traçando há anos: o caminho de uma ditadura militar. Em uma terça-feira, 11 de setembro, a Casa de la Moneda, sede do governo chileno em Santiago, foi bombardeada por foguetes lançados por aviões e canhões do exército americano. Dentro, estavam Allende e seus ministros e conselheiros.

 “Em 11 de setembro, os inimigos da liberdade estão comprometidos a atuar contra nosso país. Hoje me sinto em um outro mundo, em um mundo onde a própria liberdade está ameaçada”[2].

Pode parecer que essas palavras tenham vindo da boca de Allende, mas não. Naquela noite de 11 de setembro, ele já estava morto no Palácio de la Moneda. Esse discurso foi proferido também em uma terça-feira de 11 de setembro, mas não de 1973 e sim de 2001, pelo presidente americano George Bush, após os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Irônico. O próprio presidente esqueceu a história e a trajetória de seu país durante a Guerra Fria.

A ditadura chilena, instalada com total apoio americano e comandada pelo General Augusto Pinochet, foi, ao lado da ditadura Argentina, a mais violenta da América do Sul. Foi um golpe sangrento e que se perpetuou por 17 anos. Nos primeiros dias de combate, cerca de 20 mil pessoas morreram. Mais de 100 mil pessoas sofreram torturas por militares treinados pela escola americana de guerra, sendo que dessas 100 mil, 7 mil ficaram presas em campos de concentração[3]. Falar de tortura com números absolutos retira todo o peso que a palavra carrega. Quando falamos de tortura, falamos de mães sendo estupradas por militares e por cachorros em frente aos seus filhos.

Deixando as palavras finais de Allende antes de sua morte, que preservemos, aqui, sua memória: “a História é nossa e quem a escreve é o povo. Viva o Chile, Viva os trabalhadores!”

***

Para complementar e estender a leitura do artigo, recomendo o premiado e recente filme chileno NO, no qual o talentoso Gael García Bernal interpreta um publicitário que comanda a campanha da oposição no durante o plebiscito que votou, em 1988, a  permanência ou não do ditador no poder. 

[1] BOSI, Alfredo. Jacques – Chonchol: O Chile ontem e hoje. Estudos Avançados, vol.8 no.21 São Paulo May/Aug. 1994. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141994000200016&script=sci_arttext 
[2] Disponível em:  http://www.youtube.com/watch?v=QekSkFX7RXA
[3]  BOSI, Alfredo. Jacques – Chonchol: O Chile ontem e hoje. Estudos Avançados, vol.8 no.21 São Paulo May/Aug. 1994. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141994000200016&script=sci_arttext 
Veridiana Domingos é socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da mesma instituição, trabalha com educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência. 

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Categorias: Mundo

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3 Comentários em “Os EUA e seus 11 de Setembro”

  1. Claudio Felisoni de Angelo
    18/09 às 22:37 #

    Que feliz paralelo! De fato, lamentavelmente essas intervenções absolutamente e moralmente reprováveis ocorreram de modo generalizado em toda a América Latina. O tema não é apenas um registro histórico. Agora mesmo a denúncia de espionagem envolvendo Estados Unidos e Brasil coloca no centro das atenções a questão da soberania nacional.

  2. Feliciano Cordeiro
    18/09 às 03:00 #

    Sob o ponto de vista do projeto do Salvador Allende, implantar socialismo no Chile pela via democrática, comento hoje, direto, foi utopia. Eu estava estudando na USP, naquele ano, colegas morriam e suas mortes não eram noticiadas, mas enquanto isso, colegas da USP viajavam pra Santigado, com tudo pago, prá ficar nos melhores hotéis e subirem ao paraíso. O Serra publicou, quinze dias atrás, ou na Folha ou Estadão, isso de ser exilado duas vezes, primeiro no Brasil, depois no Chile. Estávamoso sufocados, na América do Sul, não tinha como a esquerda escapar por aqui. E tb não tinha medidas, o militante caia na repressão, o pau comia,. E se vc não fosse dado à sobrevivência, morria, pontno. Muitos morreram. Quatro anos depois, dezembro de 1977, estive em Santiago, viagem de turismo, e obervação.Pessoas medrosas por toda parte, dede o motorista o táxi até o atendente do hotel. Uma coisa foi a repressão no Brasil, que matou diluído em muitos anos, outra coisa foi a repressão no Chile, que já saiu matando o Allende, logo no primeiro dia. Esse é o ponto, 11 de setembro tem isso, mata logo de cara, seja no Chile, seja em NY. 31 de março, melhor dizendo, primeiro de abril, diferente foi matando devagarzinho.

  3. Feliciano Cordeiro
    18/09 às 02:02 #

    Excelente Veridiana o seu artigo. Equilibrado, analítico e melhor de tudo, didático, facinho de ler e entender. Gosto da sua possibilidade, pequisar, analisar e elaborar texto assim que fascina pela simplicidade. Adorei.

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