40 anos do golpe que assombrou o mundo

Estátua de Salvador Allende em Santiago do Chile (Foto: Twinkletoez, Flickr)

Estátua de Salvador Allende em Santiago do Chile (Foto: Twinkletoez, Flickr)

The US didn’t do it, but we helped them create the conditions as great as possible

US Secretary of State, Henry Kissinger, to President Richard Nixon

[Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Presidente Salvador Allende Gossens, em seu discurso derradeiro pelo rádio

 Este ano marcou os quarenta anos do golpe militar no Chile, ocorrido em 11/09/1973, após uma série de bombardeios aéreos e terrestres ao Palácio de La Moneda pelos militares chilenos com auxílio logístico americano, país que apoiava diretamente[1] a oposição no Congresso e conspirava junto às Forças Armadas. Tanto pela sanguinolência do golpe em si, quanto pelas estimadas 3,2 mil mortes e dezenas de milhares de torturados, a memória latino-americana foi para sempre cristalizada pelos trágicos eventos daquele dia, em Santiago.

De tão trágico chega a ser cômico – ou ironicamente tragicômico – o fato que o primeiro atentado terrorista perpetrado contra os EUA foi realizado justamente por asseclas de Pinochet em Washington, que explodiram um carro-bomba em 1976 a poucos metros da Casa Branca na esquina pela qual passava o ex-chanceler chileno e grande aliado de Allende, Orlando Letelier, e sua assistente americana.

Dentre as medidas positivas do governo da Unidad Popular que se destacam estão a concessão de milhares bolsas de estudo para crianças indígenas da etnia Mapuche (historicamente marginalizada), a construção de 120 mil moradias populares com a concessão de direitos trabalhistas plenos aos trabalhadores temporários das obras, o envio de médicos de família para regiões carentes do país (a exemplo do atual Programa Mais Médicos do Brasil), o redesenho dos planos do metrô de Santiago de modo a favorecer as periferias, a expansão de programas de vales-alimentação para a população carente, a reformulação do imposto de renda de modo a torná-lo mais progressivo, a democratização do sistema universitário com a sua gratuidade (a taxa de matrícula no ensino superior quase dobrou até 1973), entre várias outras.

Negativamente, destaca-se a fixação de preços de alimentos básicos para o combate da inflação que vinha subindo, apesar de não tão criticamente como no resto da América Latina. O controle de preços apenas desestabiliza a oferta e a demanda de um bem, gerando desabastecimento e o surgimento de mercados negros. A expansão monetária que houve no início do governo contribuiu para a retomada da inflação já no fim do governo e apenas estimulou o PIB no curto prazo. Ademais, a moratória na dívida externa devida a governos e credores estrangeiros apenas serviu para aumentar as tensões com os EUA. Infelizmente não houve tempo, devido ao golpe, para julgar se a inovadora decisão do governo de instituir um plano de pagamentos de salários tripartite – funcionários, governo e empresários – nas indústrias seria eficiente e conseguiria reduzir a desigualdade de renda.

No primeiro ano de governo, já em 1971, houve uma redução de 36,1% para 22,1% na taxa de inflação, o salário real médio subiu 22,3%, e o diferencial dos salários mínimos entre trabalhadores qualificados e não qualificados foi reduzido para 35%. A inflação, no entanto, teve uma retomada no final do governo devido à expansão dos gastos públicos, mas sem comprometer os ganhos iniciais.[2]

As polêmicas medidas do governo de Allende de nacionalização de ativos norte-americanos no Chile são amparadas pela letra da lei, uma vez que as concessões estavam irregulares e seus contratos encontravam-se no final, cabendo a renovação ser decidida pelo governo à luz de sua legalidade. Mesmo se este não fosse o caso, um governo soberano está sob a salvaguarda do direito internacional ao nacionalizar as empresas dos setores econômicos que julgar melhor – por mais ineficiente que esta medida possa ser – sem ser derrubado pelo país de origem de tais ativos. No caso, os setores nacionalizados foram o do cobre (a commodity que garante, em certa medida, a atual prosperidade da economia chilena, e cujos preços internacionais caíram no começo da década de 1970), o bancário, o de saúde e o de educação.

Locautes (greves patronais) com claras intenções de prejudicar politicamente Allende foram feitos em todo o país – com apoio dos oposicionistas e dos EUA – e a oposição democrata-cristã se radicalizou, acusando Allende de “cubanizar” o Chile. Somado às nacionalizações, à retomada das relações diplomáticas com a Cuba de Fidel Castro[3] e ao confronto com a Igreja Católica em relação à política educacional liberal, houve a continuidade do programa de expropriação de terras improdutivas e/ou que excediam 80 hectares e sua redistribuição pelo governo, processo que já havia sido iniciado pelo seu antecessor democrata-cristão, Eduardo Frei Montalva: em menos de dois anos os extensos latifúndios, herança colonial, haviam sido abolidos, com 40% das terras agricultáveis expropriadas e redistribuídas. Isso só poderia inflamar a latente veia autoritária da direita nacionalista, temerosa de que o Chile caminhasse a trilha socialista de mãos dadas com a União Soviética, alinhando-se com o que eles julgavam o lado errado da Guerra Fria. Isto é, o contexto de confrontação entre yankees e commies sem dúvida instilou o anticomunismo na caserna. Mas é preciso deixar claro que a Allende não interessava uma aliança com os soviéticos justamente pelo caráter independente de sua experiência socialista.

Mesmo com a animosidade americana e com o contexto de Guerra Fria, o debate entre a alternativa socialista e o capitalismo no Congresso já era intenso, o que era evidenciado por uma divisão marcada entre os partidos de esquerda e os de direita, na qual a Democracia Cristã transitava muito, apesar de ter pendido para a direita após o governo Frei. Inclusive a direita já havia tentado impedir a posse de Allende, mas sem sucesso. Cabe lembrar que a Unidad Popular governava com uma minoria de 82 deputados contra 117 da Confederación de la Democracia, que reunia os partidos de direita.

Pode ser que Allende, um “homem da paz” de acordo com o famoso poema de Benedetti[4], tenha sido ingênuo e/ou não tenha manobrado com perspicácia suas forças armadas, afinal, seu homem de confiança na chefia do Exército, o general Carlos Prats, foi quem assinou a nomeação de Pinochet como seu sucessor, abrindo portas para uma ambição desmedida que ainda restava escondida por detrás de seus óculos escuros. Além disso, o tanquetazo – episódio no qual um golpe militar foi impedido por brigadas blindadas leais a Prats – de fins de junho de 1973 parece não ter ensinado uma maior prudência a Allende. A extrema-esquerda chilena também é culpada por radicalizar o ambiente político a partir já de julho de 1973, tornando o diálogo com a oposição e com os militares de direita inviável.

De qualquer forma, a memória de Allende deve ser preservada por reconhecer que uma alternativa democrática socialista (“la vía chilena al socialismo”) talvez fosse possível, ainda mais em um momento no qual a maioria da esquerda latino-americana adotava táticas de luta armada em grande parte por causa da inexistência de canais institucionais de participação e disputa política, já que o Cone Sul estava tomado por ditaduras militares, marginalizando quaisquer políticos de esquerda.


[3] Em 1971, o Chile se juntou a México e Canadá – não exatamente países hostis a Washington – na rejeição de uma resolução da OEA (Organização dos Estados Americanos) que proibia seus governos de restabelecer relações diplomáticas com Cuba.

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um comentário em “40 anos do golpe que assombrou o mundo”

  1. 18/09 às 10:47 #

    André, como te disse, texto muito bom, assim como os demais. Porém, aí vão as discordâncias (centradas nos parágrafos sobre a economia, que são os únicos que me sinto a vontade de falar alguma coisa):

    1) Você afirma que “A expansão monetária que houve no início do governo contribuiu para a retomada da inflação já no fim do governo e apenas estimulou o PIB no curto prazo.” Isso é uma perspectiva neokeynesiana que não considera que os investimentos são uma função da utilização da capacidade instalada. Estimular a economia no “curto prazo” é, portanto, estimular o aumento da FBCF e do crescimento de “longo prazo” da economia. Não sei exatamente como andavam as variáveis macro no “final” do Governo Allende, mas pelo que consta nos autos, a coisa não ia tão bem, e os estímulos monetários poderiam, sim, afetar o longo prazo.

    2) Mais adiante você insiste nesse viés neokeynesiano: “A inflação, no entanto, teve uma retomada no final do governo devido à expansão dos gastos públicos, mas sem comprometer os ganhos iniciais.” Acho complicado dizer que a inflação foi consequência da expansão dos gastos públicos, pois, como você mesmo afirmou, houve um significativo aumento dos salários reais, o que, certamente, pressiona preços diante de um conflito distributivo. Isso só não aconteceria no caso do aumento da produtividade real ser muito superior aos ganhos do salário real, o que não foi o caso. A inflação, no caso do Chile de 1972/3 tem um componente muito mais complicado do que a simples expansão da base monetária ou mesmo dos gastos públicos. O que me parece é que houve uma tentativa dos empregadores de recompor suas margens, o que tende a levar a um processo inflacionário.

    Bom, mas isso são meros detalhes que não alteram o entendimento do texto e, muito menos, seu foco central.

    Um abraço e, por favor, continue escrevendo!

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