O poço sem fundo da balança comercial.

Tendência de queda. Fernando Pimentel, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior fala a Secretaria de Assuntos Estratégicos (Divulgação, SAEPR)

Tendência de queda. Fernando Pimentel, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior fala a Secretaria de Assuntos Estratégicos (Divulgação, SAEPR)

Muito tem se falado sobre a balança comercial ao longo das últimas semanas. O fechamento da balança com um saldo negativo no montante de US$ 3,8 bilhões de Janeiro a Agosto deste ano chamou a atenção para a exposição do Brasil ao cenário externo. Um déficit dessa monta nos primeiros oito meses de um ano não era registrado desde 1995 (déficit acumulado de US$ 4,2 bilhões).

Os primeiros oito meses de 1995 corresponderam ao momento seguinte à implementação do Real quando o câmbio se valorizou após o estabelecimento da paridade R$ 1 = US$ 1 e chegou a ser cotado a R$ 0,83 por dólar ao longo dos primeiros meses de 1995. Após o turbulento início dos anos 1990, com o câmbio em constante desvalorização e a inflação descontrolada, as importações dispararam.

O déficit comercial em 1995 significou que as importações foram 13,8% maiores do que as exportações, enquanto que, no mesmo período em 2013, as importações superaram as exportações em 3,7%, indicando que a gravidade desse resultado em 1995 foi maior. Isso não significa que a deterioração atual não seja preocupante para o Brasil, mas apenas que a sua comparação com o que passou em 1995 não passa de uma coincidência numérica.

O contexto do déficit registrado este ano é completamente distinto. A deterioração do saldo comercial não se deu de maneira brusca como o resultado registrado em 1995, mas vem se reduzindo desde 2008 (de um saldo de US$ 40 bilhões ante os US$ 19 bilhões registrados em 2012). Uma das explicações que tem sido apontada para este forte déficit no acumulado até Agosto é o registro de aproximadamente US$ 4,6 bilhões de importações de petróleo e derivados que ocorreram no fim de 2012, mas que foram registradas apenas no começo do ano. Soma-se a isso a parada programada de plataformas na Bacia de Campos e quem tem afetado a produção do país.

Se o déficit relacionado ao petróleo e seus derivados se dá em função de circunstancias passageiras, faz pouco sentido apontá-lo como causa. O preocupante é que o saldo comercial do país se aproximou tanto do zero que uma parada programada em plataformas de petróleo é capaz de transformar um superávit em déficit. As importações vêm crescendo mais do que as exportações desde 2006[1]. Entre 2006 e 2011, as importações cresceram a uma taxa média de 20% ao ano, enquanto as exportações cresceram em média “apenas” 13% ao ano. Com isso, o saldo comercial vem se reduzindo.

O crescimento das importações a taxa mais alta que as exportações impactava negativamente o crescimento do PIB (uma parcela proporcionalmente maior de consumo interno sendo atendido por importação, uma parcela proporcionalmente menor de consumo externo sendo atendido por produção brasileira). Em conjunto, a deterioração do saldo comercial eleva o déficit em conta corrente, aumentando o montante “mínimo” de capital necessário atrair para financiar esse resultado negativo.

O aumento das importações foi causado pela valorização do Real que, por sua vez, foi consequência da ampla entrada de capitais no país, que tornou o balanço de pagamentos amplamente positivo (não restringindo importações, já que há financiamento). A entrada de capitais ocorre no momento pré-crise pela alta confiança e busca de ativos de maior rentabilidade e, no pós-crise, pelo maior risco nos “tradicionais” investimentos e a necessidade de remuneração muito acima da dos ativos zero-risco EUA/parte Europa, (entre muitos outros fatores).

O crucial é olharmos tanto para a piora quantitativa da balança comercial, como para a perda qualitativa. Nota-se um aumento da participação de commodities na pauta de exportação do Brasil 46% para 64% entre 2005 e 2012. Produtos tradicionalmente de preço mais volátil e cujos preços em agosto atingiram o valor mais alto da série histórica no Índice Commodities – Brasil, calculado pelo BC. Outro espirro na economia mundial poderia gerar grande variação nesses preços.

A variação cambial causará a redução do crescimento das importações. Entretanto, a variação do preço das commodities fará a oscilação das exportações decrescer de uma maneira mais rápida. O resultado dos oito primeiro meses de 2013 em comparação com o mesmo período de 2012 já revela uma tendência nesse sentido. Exportações este ano estão 19,6% mais baixas que no mesmo período de 2012 (estas, por sua vez, já estavam 5,3% abaixo das de 2011). Importações também se reduziram em 2013, mas num montante muito abaixo (-4,9%).

Assim, dada as diferentes elasticidades das exportações e importações e sabendo-se que o efeito câmbio ainda tardará um pouco a aparecer, a obtenção de saldos comerciais positivos se complicará com qualquer revisão negativa a respeito do crescimento produtivo mundial.


[1] (exceto 2009)

Alessandra Macedo é economista formada pela Unicamp. Trabalha com economia industrial e economia internacional. Pesquisa internacionalização produtiva sul-sul e investimentos chineses no mundo.

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Categorias: Economia

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