Desvalorização do Real: nada de crise.

(Foto de Jeff Belmonte)

(Foto de Jeff Belmonte)

Recentemente, o real vem sofrendo um considerável processo de desvalorização em relação ao dólar, tendo saído de uma máxima de R$1,947 em 8 de Março de 2013 para uma mínima de R$2,4512 em 21 de Agosto de 2013 (25,64% ao todo), tendo se estabilizado nos últimos dias ao redor de R$2,35. Mas esse processo de desvalorização da moeda brasileira também se deu em relação ao euro   (28,45% no mesmo período) e à libra esterlina (32,41%). Tendo em vista que o câmbio é uma das principais variáveis macroeconômicas, tal processo tem diversas repercussões na economia brasileira.

A principal razão a explicar a valorização do dólar é a recuperação[1] da economia americana, que teve um crescimento de 2,5% no segundo trimestre de 2013 em relação ao anterior, o que superou todas as expectativas. A expectativa é de crescimento de 2% do PIB real dos EUA em 2013. Apesar de os efeitos da crise financeira de 2008 ainda não terem se dissipado, o lucro das empresas também subiu 2,6% no mesmo período. No entanto, houve estabilidade do dólar em relação às moedas britânica e europeia ao longo do ano, sendo que também no segundo trimestre, o PIB da zona do euro subiu apenas 0,3%, após uma queda no trimestre anterior de mesma proporção. O que preocupa na região é a dependência da locomotiva alemã e a fragilidade dos mercados de crédito, imobiliário e de trabalho. Já a economia do Reino Unido surpreendeu e cresceu 0,7% no segundo trimestre.

Disso se conclui que os mercados perderam parte de sua confiança em relação às economias emergentes e/ou dependentes da exportação de matérias-primas, tendo em vista o fim do boom de commodities como a soja e o minério de ferro. Desde o começo de maio, o câmbio de Turquia, Índia, Brasil e Austrália teve uma desvalorização para o dólar de 10%, 19%, 22% e 13%, respectivamente. A moeda chinesa permaneceu estável devido aos fortes controles cambiais do governo de Pequim. Ademais, é preciso deixar claro que o real estava sobreapreciado por anos, logo este movimento ainda é apenas de correção, levando o câmbio ao seu equilíbrio.

Essa recuperação da economia americana é perceptível nas recentes atas do Federal Open Market Committee (o COPOM – Comitê de Política Econômica – do Federal Reserve, o BC dos EUA), que preveem uma política monetária menos frouxa nos próximos meses de maneira a manter a inflação controlada, já que o PIB apresenta sinais claros de alta. O enxugamento da enorme oferta de dólares que o Fed vinha despejando no mercado, cerca de US$85 bilhões por mês, fortalecerá os greenbacks[R1] . Os títulos longos do Tesouro americano, uma composição dos títulos curtos, também tiveram sua taxa de juros elevada, o que sinaliza que este instrumento, a última trincheira de estímulo direto das autoridades monetárias, começa a ser desmantelada aos poucos. Os títulos de curto prazo continuam perto de zero, o que sem dúvidas ajuda a manter o dólar desvalorizado. O momento em que os chamados Fed Funds sairão do zero está sendo aguardado pelo mundo todo, uma vez que reorientará o movimento de capitais e gerará processos especulativos contra moedas frágeis – mesmo que o aumento dos juros seja mais provável apenas em 2014.

Certamente o repasse inflacionário da alta do câmbio não será tão significativo em relação ao que já foi no passado, visto que a economia brasileira conta com reservas maiores do Banco Central, de US$373 bilhões, ou 15,8% do PIB (maior que a dívida externa). De qualquer forma, calcula-se que uma desvalorização de 20% do câmbio aumenta a inflação em 1 ponto percentual no Brasil, o chamado repasse cambial. Por conseguinte, uma alta na expectativa de inflação faz com que o BC aumente a taxa de juros, de modo a reduzir a inflação, o que de fato fez na última reunião, na qual a taxa Selic foi fixada em 9% a.a., o maior valor desde agosto do ano passado, quando chegou ao fim o processo de queda dos juros que o BC estava instituindo. A repercussão de juros maiores no PIB é negativa, fazendo com que o crescimento em 2013 seja por volta de 2%, bem abaixo das previsões no começo do ano. Somando isso ao aumento do déficit externo[2], que no acumulado em 12 meses está em 3,39% do PIB sendo que o acumulado em 2013 já está em 3,95% do PIB, há uma sinalização negativa para os fundamentos da economia brasileira, o que estimula uma desvalorização do real.

As medidas que o BC adotou destinam-se a conter uma desvalorização excessiva e combater especulações deletérias à economia, e não manter a taxa de câmbio em um patamar pré-estabelecido, como vinha se dizendo nos jornais e no mercado financeiro quando havia uma sobreapreciação do real, que flutuava entre R$1,90 e R$2,10. A principal medida do BC é o swap cambial, que consiste em trocar no mercado a remuneração de algum papel denominado na variação cambial pela taxa Selic pós-fixada, ou seja, ancora-se o risco nos juros e não no câmbio. Nesta operação o BC vende dólares no mercado futuro, aumentando a oferta da moeda americana no mercado nacional, de maneira a que se preço caia, segurando a taxa de câmbio. Isso incentiva os agentes a se interessarem por uma menor desvalorização do real, de modo a que possam pagar menos do que receberão do BC. Serão ofertados US$3 bilhões em leilões diários, chegando a US$50 bilhões até o fim do ano. O papel do BC de garantir a liquidez diária do mercado de câmbio e garantir o hedge cambial é fundamental para estabilizar momentos de intensa especulação.

O que se conclui é que a recente desvalorização do real é apenas um processo de ajuste da economia americana e um processo de reajuste do real ao seu valor de equilíbrio, e não uma crise cambial com fuga de capitais que impactará seriamente na economia brasileira.

André Castro é formado em Economia pela FEA-USP, tem pós-graduação em Economia pelo Birkbeck College da Universidade de Londres e é mestrando em Economia Internacional pela University of Manchester

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Categorias: Economia

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