Crescimento econômico: expectativas temperamentais

Guido Mantega fala à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. (Foto: Geraldo Magela/Ag. Senado)

Guido Mantega fala à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. (Foto: Geraldo Magela/Ag. Senado)

No final deste mês, estarão disponíveis os dados do PIB do segundo trimestre de 2013. O resultado nos ajudará a entender quanto do baixo crescimento do PIB em 2012, 0,9%, se repetirá em 2013, afinal o resultado de um ano tende a influenciar o do próximo. O Banco Central possui a própria série para estimar o crescimento econômico no país e que é tido como a “prévia do PIB”, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Enquanto o PIB é divulgado trimestralmente pelo IBGE, o IBC-Br traz estimativas mensais, mas que utiliza metodologia distinta.

O PIB divulgado em Maio sobre o crescimento no primeiro trimestre de 2013 ficou abaixo do esperado, com um crescimento em relação ao trimestre anterior de 0,6%. Apesar de ficar aquém das expectativas, se continuássemos a crescer nessa taxa até o final do ano, teríamos um crescimento de 2,4% em 2013. Os dados divulgados pelo IBC-BR estimam que o crescimento no segundo semestre foi de 0,9% em relação ao primeiro trimestre. Anualizado, o crescimento do PIB deste ano fecharia em 3,4%.

Apesar de o cenário de modo geral indicar que se deve verificar uma leve recuperação no ritmo de crescimento, o pressentimento do “mercado” (leia-se consultorias e bancos) atualmente é que devemos fechar o ano com 2,2% de expansão real do PIB. Isto equivale a dizer que o crescimento no terceiro e quarto semestre do ano deve ser a metade do segundo semestre (0,45% em relação ao semestre anterior). É um resultado possível para a economia brasileira em 2013, mas seria uma forte desaceleração com tendência que se descolaria do verificado na primeira metade do ano.

Para mensurar o pressentimento do “mercado”, frequentemente, utiliza-se o relatório Focus divulgado semanalmente pelo Banco Central. Este relatório reúne as previsões atualizadas de cem economistas da área financeira sobre os principais indicadores econômicos; índices de inflação, de atividade e relacionados ao setor externo. Neste relatório, podemos verificar uma onda de pessimismo em relação ao crescimento esperado para este ano. A estimativa de crescimento do PIB se encontra em 2,2% para 2013, mas que vem deteriorando desde os 4% de crescimento inicialmente estimados no final de 2012. A expectativa de crescimento entrou em queda livre na metade de Maio em diante (PIB estimado em 3% em 10/05) e tendo se estabilizado na casa dos 2,2%.

Este fenômeno coincide com o início da desvalorização do real frente ao dólar e a alta da taxa Selic (a taxa básica de juros da economia), após as três altas consecutivas pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) a partir de Abril deste ano. Antes das três altas e a esperada quarta alta neste dia 28 de agosto, a Selic vinha permanecendo em queda desde Setembro de 2011. Os temores do crescimento brasileiro estão dependentes do setor externo dada a crescente necessidade de uma conta de capitais cada vez mais positiva para fechar o balanço de pagamentos. Apesar da desvalorização do dólar, a entrada líquida de capitais no mercado brasileiro em Julho foi a quarta maior do ano, revertendo a tendência de redução de entrada de capitais em março de 2013.

O relatório Focus mostra que os analistas de mercado esperam que o setor agropecuário deverá ser o que mais crescerá (estimado em 7,6%). Este resultado se mostra em linha com o crescimento no setor de 9,7% no primeiro trimestre de 2013, tendo em vista que o valor da produção agrícola cresceu 8,1% na colheita de 2013 (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). O fato de o crescimento estar sendo puxado pela agricultura significa que haverá uma desaceleração do setor na segunda metade do ano (época do plantio), impactando a taxa de crescimento negativamente.

Ao mesmo tempo, a estimativa Focus para o PIB da indústria mostra algo que parece ser mais fruto de puro pessimismo do que de fundamento. Apesar da forte desvalorização cambial, a estimativa do crescimento do PIB industrial seguiu caindo (2,81% em 10/05 para 1,42% em 23/08). A justificativa mais comum seria a queda na Confiança do Consumidor (mas esta já vem se reduzindo desde Abril de 2012 e em Agosto apresentou alta) ou corrosão da renda real pela inflação. A renda real segundo o IBGE tem se reduzido durante os últimos seis meses, mas a renda mediana está no mais alto patamar da série histórica.

Apesar desses dois amenizadores do crescimento da demanda, com a variação cambial, deveria haver substituição de demanda atendida por importações por produção nacional gerando estímulo para o crescimento da produção industrial. Em que medida isso de fato ocorreria, é um debate complexo. O certo, entretanto, é que uma desvalorização cambial em alguma medida deveria frear a piora de expectativa em relação ao crescimento do PIB industrial, salvo, em alguma medida, naqueles setores com maior dependência de insumos importados. Isso não ocorre.

No início do ano, não havia uma única consultoria ou banco que projetasse crescimento do PIB para 2013 em 2%. Estimativas variavam entre 3,25% a 3,75%. Todos projetavam alto crescimento e agora todos projetam baixo, mas não há divergência nas previsões. Num cenário ainda instável de pós-crise (cinco anos depois), a completa incerteza em relação ao que pode ocorrer nos últimos quatro meses deste ano faz com que todas essas mesmas previsões de crescimento do PIB se aglomerem agora na casa dos 2,2%.

Assim como havia uma estimativa excessivamente positiva, agora é possível que essas estimativas estejam excessivamente negativas. Um crescimento acima dos 2,5% não se faz impossível dados os resultados da primeira metade do ano, e dado que não ocorra nenhum grande susto na economia internacional. A maior consequência de expectativas voláteis é que o planejamento de projetos de longo prazo, leia-se investimentos, fica prejudicado.

Alessandra Macedo é economista formada pela Unicamp. Trabalha com economia industrial e economia internacional. Pesquisa internacionalização produtiva sul-sul e investimentos chineses no mundo.

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Categorias: Economia

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