Mídia: tempos obscenos.

Médicos cubanos desembarcam em Brasília. (Foto: Rogerio Tomaz Jr.)

Médicos cubanos desembarcam em Brasília. (Foto: Rogerio Tomaz Jr.)

“Os cubanos são bem-vindos, mas existe um problema. A contratação desses médicos é irregular perante as leis do Brasil. Eles precisam da revalidação do diploma numa universidade brasileira para atuar no país. Com base nessa desculpa burocrática, o Conselho Federal de Medicina [CFM] denunciou as contratações ao Ministério Público pedindo o cancelamento dos convênios. ‘Não somos xenófobos, mas não há motivo para trazer médicos de fora e tirar os empregos dos profissionais daqui’, diz Edson de Oliveira Andrade. O doutor Andrade e seu douto conselho deveriam explicar então por que faltavam médicos brasileiros nas cidades miseráveis que agora estão sendo atendidas pelos cubanos.”

As linhas acima reproduzidas foram retiradas da edição de 20 de Outubro de 1999, da revista Veja. O artigo versava sobre a ida de médicos cubanos, à época, para o Tocantins, cuja população sofria com a falta de atendimento médico.

Com maestria, o autor dá lição de pragmatismo e conclui o óbvio: existe uma deficiência não coberta por médicos brasileiros, existe uma necessidade premente de atendimento à população, portanto tem de haver uma decisão política que enfrente a questão. Fizeram bem FHC, presidente, Serra, Ministro da Saúde, e Siqueira Campos, governador do Tocantins, ao montar o plano (os dois primeiros, do PSDB, o último, do à época PFL, hoje DEM).

Mas o fato expõe algo no mínimo curioso. O que aconteceu? O que mudou tanto de lá para cá que forçasse a tal ponto essa mudança de posição? Duas coisas não mudaram, certamente: ainda há deficiência na cobertura e no atendimento médico em regiões afastadas; ainda há a – compreensível – defesa dos interesses de classe por parte do CFM.

Mudou, parece, a disposição responsável de se construir uma opinião e se envolver, com respeito, no debate. Não defendemos aqui necessariamente uma ou outra posição, a favor ou contra a vinda dos médicos neste momento. Como veículo de opinião e informação, preocupam-nos, precisamente, os instrumentos e a forma.

Apontar os pontos positivos, denunciar os negativos, oferecer ao leitor a possibilidade da escolha. Isso é construir opinião responsável. Baixar o nível do texto à rasteira argumentação de “médicos guerrilheiros”, “jalecos socialistas”, “prisão aos médicos comunistas”, é chafurdar na irresponsabilidade.

Há nisso tudo uma dose de pornografia: escreve-se, opina-se como se não houvesse história, como se nada definisse e fundamentasse a opinião a não ser a insistente e desesperada necessidade de bater com tom factoide na cara do governo. (Frise-se, o problema não é bater, o problema é o tom ao bater).

Alguns colunistas e analistas de hoje precisam de tempo para meditar sobre história: a análise da própria história de seu veículo de imprensa, que levaria o autor a olhar para o passado e considerar as razões do apoio àquela ação, àquela época, àqueles atores. Se não graduasse ou afinasse o sentido da crítica, essa análise, pelo menos, daria mais graça e respeito ao tom do discurso.

Enquanto isso não ocorre, ficamos assim, na obscena leitura de factoides.

*Vale acompanhar o texto de Veridiana Domingos sobre a vinda dos médicos cubanos para o Brasil

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Categorias: Opinião

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