Síria: um tenebroso horizonte.

Bashar Al-Assad (Foto: James Gordon).

Bashar Al-Assad (Foto: James Gordon).

O dia 21 de Agosto de 2013 foi talvez um dos mais sangrentos no conflito que já se estende por três anos na Síria. Os números circulam ao redor de 1500 pessoas – entre elas muitas crianças – mortas em um provável ataque com gás tóxico no subúrbio de Damasco. As imagens que circularam na grande mídia são de fato perturbadoras, pela quantidade de mortos, suas condições (espasmos musculares, confusão mental, e asfixia) e pela histeria de muitos que ainda sobreviviam – como uma menina de não mais de 6 anos que, em pânico, grita sem parar que está viva.

Dando um passo à frente dos Estados Unidos, William Hague e Laurent Fabius (Ministros das Relações Exteriores do Reino Unido e França, respectivamente) solicitaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que resultou em dois rápidos comunicados à imprensa que indicava nada mais que a preocupação dos integrantes do CS em relação ao acontecido e a necessidade de se investigar o caso.

No começo deste ano, Obama havia estabelecido a suposta “linha vermelha”:  o uso de armas químicas motivaria uma ação mais contundente dos EUA, começando com envio de armas para a oposição ao regime de Assad. Tal iniciativa mostrou-se politicamente inviável, já que comissões nas duas casas do Congresso americano barraram a aprovação da proposta.

Depois da complicada ocupação americana no Iraque, há na sociedade americana – e na cabeça do próprio Obama, é claro – a preocupação com os custos humanos, morais e financeiros de uma nova incursão ou envolvimento militar. Pior, não é fácil determinar uma unidade na oposição a Assad.

Nesse sentido, carta de 19 de Agosto enviada ao Comitê de Assuntos Exteriores do Congresso americano pelo General Martin Dempsey, expõe que a entrada dos EUA no conflito pode levar ao colapso das instituições de Assad e abrir caminho para o empoderamento de grupos extremistas. O General, assim, deixa clara a substância da política internacional: não há ação sem a mensuração cuidadosa dos riscos aos interesses das grandes potências. A dificuldade e hesitação em armar rebeldes parte de uma preocupação fundamental: é difícil determinar que grupos podem se alinhar aos interesses norte-americanos após a queda de Assad.

De fato, existe um fator especialmente complicador no cenário rebelde sírio: a influência da Al-Qaeda no conflito, por meio do ISI  (sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque) e o Jabhat al-Nusra – JN, que pretendem constituir um califado Sírio-Iraquiano sob a Sharia, a lei islâmica. Evidentemente, não há entre os opositores apenas esses dois grupos. Há também apoiadores de uma reforma política que faça da Síria um país democrático – na linha do que havia sido levantado como bandeira mais ou menos comum na chamada Primavera Árabe. No entanto, o ISI e o JN já dominam grande parte do norte da Síria, tendo inclusive nomeado emires para comandar cidades importantes como Aleppo.

A oposição ao regime de Assad, assim, é um vespeiro difícil de ser entendido e mais difícil ainda de ser controlado. O ataque com gás tóxico ocorrido em 21/8, portanto, pode ter partido de uma miríade de atores distintos – inclusive o próprio regime de Assad. (Guga Chacra oferece um panorama sobre essas possibilidades em seu blog no Estadão).

O recente ataque em Damasco configura, independente de sua autoria, um crime internacional de atrocidade e expõe o famoso conceito “responsabilidade de proteger”: a comunidade internacional tem a obrigação de atuar em um cenário de crime de lesa humanidade para proteger a população local.

A materialização dessa responsabilidade, no entanto, depende da anuência dos cinco integrantes com poder de veto do Conselho de segurança da ONU, altamente improvável. A Rússia (histórica aliada e fornecedora de armas da Síria) e a China (a quem não agrada a presença política e militar dos EUA no Oriente Médio) tem barrado qualquer ação mais contundente do Conselho – como foi o caso do duplo veto à resolução de imposição de sanções econômicas ao país de Assad, em Julho.

Ao fim e ao cabo, o cenário é o velho “ruim com ele, pior sem ele”. Apesar da retórica, os EUA não querem que Assad seja deposto: sem ele o país poderia se transformar em uma incubadora de extremistas sob a guarda da Al-Qaeda. Curiosamente, à Rússia também não interessa a queda do ditador, por conta das relações estratégicas com a Síria. Se Putin e Obama concordassem ao menos nesse ponto, um bom acordo político costurado com Assad (que incluísse a China, claro) para alguma abertura política interna poderia criar uma trégua, um “algodão entre cristais”. Não fossem os custos de imagem em uma negociação com o ditador sírio e o deplorável estado da relação entre EUA e Rússia, a população síria teria algum fôlego.

Reservadas as diferenças, uma negociação liderada por um homem forte na ONU como Sergio Vieira de Mello (sobre quem escrevi essa semana), que foi o primeiro a se sentar com o Khmer Vermelho no Camboja para assegurar o retorno dos refugiados e seu assentamento pago com dinheiro das Nações Unidas, poderia apontar um bom caminho. Mas aquela ONU morreu com Vieira de Mello há dez anos: perdeu-se a boa e necessária dose de pragmatismo e, principalmente, um pragmatismo orientado moralmente, que leve em conta o lado mais afetado da balança de poder (a população).

Entre o risco moral para Obama por sentar-se à mesa com uma figura como Assad; o temor de uma Al-Qaeda mais forte; a perspectiva, para a China, de maior influência americana no eixo Oriente Médio-Ásia; a perda, para a Rússia, de um ótimo cliente e uma guerra enriquecedora, o número de mortos aumenta e a questão humanitária se reduz a efeito colateral a estampar capas de jornal.

Renato Nunes Dias é mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

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Categorias: Mundo

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