É tempo dos incansáveis.

Sergio Vieira de Mello. Foto de Patrick Bertshmann

Sergio Vieira de Mello. Foto de Patrick Bertshmann

Há exatos dez anos, a ONU, o Brasil e o mundo perdiam Sergio Vieira de Mello, que acumulava as funções de Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos e de enviado especial em Bagdá, Iraque. Ele morreu por conta de uma explosão ao lado do hotel que servia de base para as Nações Unidas na cidade e naquele dia faria dois discursos expressando sua discordância em relação à ocupação americana no país.

Era filho do diplomata brasileiro Arnaldo Vieira de Mello, que escreveu sobre política externa brasileira e dedicou parte de sua juventude pobre à tentativa de entrar para o Itamarty, por meio da quase impossível prova de admissão. O livro de autoria de Samantha Power “O Homem que Queria Salvar o Mundo” conta que Arnaldo era “pobre a ponto de não poder comprar livros nem cadernos [para estudar], fazia todas as suas leituras numa biblioteca pública do Rio, espremendo suas anotações nas fichas do tamanho da palma da mão usadas para solicitar livros à biblioteca. Carregava pequenas bolsas repletas de pilhas dessas fichas e organizava as bolsas por assunto.”

Homem incansável, que ao lado de Vinicius de Moraes e tantos outros, foi dispensado do serviço diplomático pelo governo militar, em 1969, após servir 28 anos ao país. Sergio, seu filho, que à época fazia Sorbonne e saíra às ruas no Maio de 1968 contra De Gaulle, estaria em pouco tempo entregue à própria sorte, sem a ajuda do pai.

E foi incansável, de então até o fim dos seus dias. Lotado no ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados), como revisor de Francês, Sergio (já à época um poliglota) iniciou seu trabalho de 34 anos sob a bandeira azul e branca da organização.

Havia, evidentemente, nutrido interesse pela carreira diplomática de seu pai. Mas o sonho morreu com o ultraje da dispensa de Arnaldo. O ACNUR, no entanto, reacendeu a vontade de trabalhar naquele meio – de horizontes amplos. Colocava em prática os dizeres do pai: a audácia é dom dos vitoriosos.

E continuou incansável. Entre outros feitos, participou do processo de retirada de 650.000 refugiados da Guerra Civil do Sudão, em 1972. Serviu em Chipre, Zimbábue, Moçambique, Peru, Camboja. Na virada do milênio assumiu o posto de Administrador da ONU para a Transição no Timor Leste: hercúlea tarefa, levada por dois anos com energia e compromisso, de construir um país recém-independente. Sergio tinha poderes ditatoriais dados pela ONU no processo, mas não os usou: preferiu fazer um gabinete de coalizão para que se fizesse a primeira Constituição do país.

De lá, por pedido do então Secretário Geral da ONU, foi para o Iraque, para atuar na transição após a queda de Saddam Hussein. Em reunião inicial com lideranças locais, ele materializou o sonho de qualquer um que em algum momento se encantou pelo significado profundo de uma organização cujo escopo e cujos valores são universais, como a ONU; em suas primeiras palavras, não fez propostas, não ofereceu respostas, pediu, simplesmente, que aqueles que ali estavam falassem sobre o que precisavam, indicassem os caminhos possíveis de sua ação.

Caminhos espinhosos, num momento em que os EUA haviam invadido o Iraque em afronta a decisões da própria ONU. Em dada ocasião, perguntado se a presença da ONU no Iraque servia de cortina de fumaça para a atuação dos EUA no país, Sergio se irrita com o repórter e responde de maneira ríspida, reafirmando a posição de independência da Organização em que ele – talvez inocentemente – acreditava.

Carolina Larriera, companheira de Sergio à época, presente no prédio naquele dia, escreveu hoje ao Huffington Post denunciando a indiferença da burocracia da ONU em investigar o caso. O local onde Sergio ficou soterrado sob os escombros, por três horas e meia, foi transformado em memorial. Três horas e meia, ajudado por dois soldados americanos nada equipados. Três horas e meia que consumaram não apenas a vida daquele homem, mas a própria ONU que ele representava.

Larriera comenta em seu texto, ainda, a posição do então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, sobre o caso. Amorim afirma que Sergio havia expressado a ele seu crescente medo por permanecer no país (ele e Carolina definiram naquele 19 de Agosto a volta para o Brasil, em seis semanas). O chanceler reconhece, ainda, que é impossível não fazer a terrível matemática entre o contexto da invasão americana, a posição crítica de Sergio à ocupação e a falha de segurança que levou ao atentado.

Carolina finaliza se texto conclamando o Brasil a prestar essa última homenagem a memória de seu companheiro: resgatar sua história e buscar esclarecer os fatos. Imagino a história dela, os fatos que ela viveu: chamando o nome de Sergio por um buraco nos escombros, ouviu suas últimas palavras.

Não há memória suficiente para a vida de Sergio. Um desses homens sobre os quais só ouvimos depois de mortos. Desses que durante a vida silenciosamente operam mudanças tão profundas em tantas vidas. Em tempos de descrença, histórias como a de Sergio Vieira de Mello são imprescindíveis: nos fazem perceber que necessitamos de uma fé decidida, porque é tempo dos incansáveis.

Renato Nunes Dias é mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

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Categorias: Mundo

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2 Comentários em “É tempo dos incansáveis.”

  1. Patricia
    19/08 às 21:42 #

    Quantos Sergios e Joaquins Barbosa temos por aí? Poucos? Talvez…mas esses são exemplos de determinação e resiliência dentro de um contexto desfavorável. Busquemos nesses tais a motivação para fazer história.

    • 20/08 às 08:17 #

      Embora eu veja certa diferença entre o horizonte moral de Vieira de Mello e o de Joaquim Barbosa, Patricia, concordo com você que temos um contexto desfavorável e nebuloso na escolha de nossos exemplos.

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