Ocupar a internet

Manifestação em Brasília. Foto: Mídia Ninja

Manifestação em Brasília. Foto: Mídia Ninja

A onda de manifestações de Junho passou: não assistimos mais aos milhões nas ruas. Os atos agora tornaram-se mais específicos nos temas e restritos no tamanho: esta semana testemunhou grupos de não mais de três mil pessoas no Rio e São Paulo com pautas relativamente unificadas em torno do descontentamento com os governadores dos dois Estados e a questão do transporte público.

Pesquisa CNI/Ibope, feita entre 9 e 12 de Julho, apontou que os governos dos dois Estados estão entre os menos populares do país (Alckmin conta com 26% de aprovação, Cabral com 12% – o menor índice no Brasil).

A mesma pesquisa indicou que apenas 7% da população aprova a atuação do Congresso Nacional, a pior na série histórica.  Números de desaprovação total variam entre 39% sobre a Câmara e 37% sobre o Senado.

Outra pesquisa do Ibope, feita entre 27 e 30 de Julho, indicou que 85% da população é a favor da reforma política, número que sobe a 92% entre pessoas com ensino superior. Ainda nesse contexto, 78% são contra o financiamento privado de campanha e 90% apoiam punições mais severas para a prática de Caixa 2.

O que os fatos e os números indicam é algo confuso. De um lado, uma clara percepção de insatisfação e reprovação da esfera pública estadual e federal, de mãos dadas com a vontade de mudar. De outro lado, um gigante que voltou ao berço e, parece, não mostra sinais de que pode se levantar novamente. O cenário não seria estranho se, por exemplo, os canais de participação disponíveis estivessem entupidos com demandas. Mas não é o caso.

Aliás, que canais mesmo?

Aí está o problema fundamental da cultura cidadã inexistente no Brasil. Se as ruas de Junho pareciam a apoteose do levante popular vestido de consciência política plena, o passar das semanas mostra que aquilo tudo não passa de uma saudade, um suspiro. Não saímos às ruas para entrar nas instituições e opera-las a nosso favor porque, fundamentalmente, desconhecemos os meios de fazê-lo. E aqui vai uma crítica à grande mídia, que não tem prestado favores nesse sentido.

Um dos últimos desfavores aconteceu em 18 de Julho, quando a Folha lançou artigo sobre instrumento de e-participação (participação online) lançado pelo governo federal. Sob o título “Rede Social do governo tem comunidade que pede ‘Fora Dilma, Fora PT, Não Lula”, o texto corrói qualquer possibilidade de informação cidadã.

O Participatório – http://participatorio.juventude.gov.br/ – foi lançado pela dupla Secretaria Geral da República-Secretaria da Juventude, e tem como objetivo abrir espaço para o debate, mobilização, produção e difusão de conhecimento sobre questões politicas relevantes. Mas o artigo não explica bem isso. A autora prefere contar sobre a comunidade ‘Fora Dilma’, muito embora reconheça que este não é o mais popular grupo da rede: hoje conta com 249 participantes contra 829 do “Brasileiros Contra a Corrupção” e 695 do “Reforma política” – sequer citados no artigo.

Os números são claros. Por que não mudar, então, o título para: Rede Social proposta pelo governo oferece espaço de debate para a juventude?

Outro exemplo que não mereceu sequer uma página nos jornais, um minuto na televisão foi o e-Democracia – http://edemocracia.camara.gov.br/web/public/home-, portal de participação cidadã lançado pela Câmara dos Deputados, em 18/6, dias depois da primeira grande onda de mobilizações das ruas. O pico de acessos ao site bateu 300 visitantes em um dia – um quinto de acessos ao Gusmão no dia do lançamento. Para se ter noção do tamanho disso: o Facebook tem 29 milhões de usuários no Brasil, número que cresce a uma taxa de quase 10% ao ano.

Não é difícil imaginar os efeitos cataclísmicos de uma e-mobilização com alguns milhões de acessos a esses e outros canais de web-cidadania.  Em um suspiro de utopia e delírio, imaginemos o  desespero dos Deputados e Senadores assistindo o e-democracia travar com 2 milhões  de acessos pela votação imediata do financiamento público de campanhas, após uma matéria no G1 e na capa do UOL.

Saímos das ruas, mas não entramos em lugar nenhum. Troquemos “entrar” por “clicar” e podemos começar algo novo e interessante.

(O http://webcidadania.org.br/ já é um bom começo).

Renato Nunes Dias é mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

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Categorias: Política, Sociedade

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2 Comentários em “Ocupar a internet”

  1. 18/08 às 17:39 #

    É isso Renato. O grande problema é que vivemos em um tempo em que a discussão sobre o tema participação está ficando muito restrito à promoção de ações para a homologação de decisões já assumidas pelas instância e poderes públicos. Isto é, vivemos em tempos de uma certa “perversão participativa” que desqualifica o sentido legítimo da participação. Acho excelente a iniciativa de O Gusmão para acompanhar suas valiosas contribuições.
    Sucesso na empreitada!
    Abraços.

    Felix

    • 18/08 às 19:07 #

      Felix, obrigado pela contribuição.
      De fato, construímos o Gusmão pensando nisso: abrir o espaço para o questionamento, nossa forma de contribuir, humildemente, com nossa participação.
      Não consigo deixar de acreditar na necessidade – moral inclusive – de buscarmos a construção desses espaços na política institucional. É por isso que considero as ferramentas de web-participação tão essenciais. Se não substituem a necessária participação ativa na deliberação, abrem, pelo menos, espaço para a informação (de ambos os lados, diga-se: representantes e representados).
      Obrigado mais uma vez,
      Abraço.
      Renato.

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