Mantega e o FMI: chance perdida.

Christine Lagarde em reunião do FMI em Tóquio. Foto de Joe Athialy.

Christine Lagarde em reunião do FMI em Tóquio. Foto de Joe Athialy.

O FMI votou, recentemente, em seu executive board, mais um pacote de assistência à Grécia, no valor de 1.8 bilhão de Euros. A reunião e votação do plano, no entanto, não transcorreram com tranquilidade: o diretor brasileiro, Paulo Nogueira Batista Jr., se absteve da votação, uma ação “infeliz”, de acordo com Christine Lagarde, Diretora-gerente do Fundo.

O desconforto de Lagarde  foi rapidamente acolhido por Guido Mantega, Ministro da Fazenda, que desautorizou publicamente Paulo Nogueira, afirmando que o Brasil apoia totalmente o resgate à Grécia.

A mídia brasileira, no entanto, tem oferecido uma cobertura rasa do acontecimento, focando suas análises apenas na suposta “desautorização” de Mantega e sua concordância com a diretora do Fundo, num esforço de quase ridicularizar a posição de Paulo Nogueira.

Fato é que o diretor brasileiro – à frente da representação do Brasil e mais dez países latino-americanos desde 2007 – é conhecido por sua posição nada favorável às políticas draconianas de ajustes estruturais encampadas pelo FMI e União Europeia na tentativa de resolução da crise.

A posição de Paulo Nogueira aponta, em verdade, para uma profunda discussão sobre a sustentabilidade econômica e social do posicionamento historicamente defendido pelo FMI. O diretor defende que as políticas de cortes radicais no gasto público colocadas pelo Fundo como condicionalidades para os empréstimos à Grécia – e outros países afetados pela crise – não estão surtindo efeito e, pelo contrário, tem levado a desequilíbrios sociais e discórdia política, que podem ter consequências catastróficas.

De fato, relatório do FMI sobre a aderência da Grécia ao plano de ajuste apresenta críticas, precisamente, sobre a capacidade do país de colocar em prática reformas burocráticas,  aumento da arrecadação de impostos, privatizações e liberalização de mercados – duas ações essencialmente dependentes de ações políticas que, na visão do Fundo, não acompanham o ritmo necessário de mudanças. O plano votado recentemente, portanto, não é um pacote da alegria: é um presente com condições.

A abstenção de Paulo Nogueira na votação, assim, não representa, como Mantega estranhamente apontou, a ausência de apoio à restruturação grega. Ela escancara, sim, a discordância do representante – e tantos outros – em relação a um modelo de assistência que onera profundamente no curto e médio prazos a população, que é forçada a pagar mais impostos, enfrentar o desemprego e o sumiço de políticas de assistência social.

Mantega, ao passar a mão no telefone e no ombro de Lagarde, reafirma, por um lado, o apoio do Brasil ao FMI – importantíssimo capital político, é claro. Por outro lado, no entanto, parece jogar pela janela o esforço que encampou na liderança de representações brasileiras em fóruns internacionais de criticar as idiossincrasias de um sistema de representação multilateral internacional pouco afeito aos emergentes e suas populações.

Ao lado de seus companheiros dos BRICS, por exemplo, Mantega tem denunciado a esquizofrenia de representação de cinco países que contam com 43% da população mundial, 40% do PIB e 50% do crescimento global, mas que, ao mesmo tempo, são relegados a 11% de poder de voto no FMI e no Banco Mundial. Passados dez anos da década de ouro dos cinco emergentes, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assinaram recentemente a criação do Acordo de Reservas Contingenciais (CRA, em inglês), que pode ser encarado como o “FMI dos BRICS” e contará com um orçamento de US$100 bilhões para resolução de problemas de liquidez.

Mantega poderia, é claro, ter reafirmado junto a Lagarde o apoio do Brasil ao Fundo e ao processo de recuperação da Grécia. Perdeu a oportunidade bem sólida e sustentada em ações importantes (como o CRA) de mostrar – como a mídia internacional tem indicado – que o Brasil e outros emergentes tem perdido a paciência com a velha política liberal e as condicionalidades do FMI.

É curioso que “diplomacia” tenha se transformado em sinônimo de acordo e concórdia. Embora Mantega tenha sido quase automaticamente submisso a Lagarde, Paulo Nogueira teve tato: poderia ter votado contra, mas absteve-se, mostrando que discordamos sem gritaria. Ensina, assim, que diplomacia pode ser sinônimo de altivez, com classe.

Renato Nunes Dias é mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

Tags:, , , , , ,

Categorias: Economia, Mundo

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

2 Comentários em “Mantega e o FMI: chance perdida.”

  1. Wally Domingos
    14/08 às 20:34 #

    Parabéns pelo site!!!!!

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: