Frei Betto: Igreja, manifestações e o PT.

Frei Betto no Fórum Econômico Mundial. (Foto de Alexandre Campbell)

Frei Betto no Fórum Econômico Mundial. (Foto de Alexandre Campbell)

Frei Betto, religioso dominicano, coordenou a mobilização social do programa Fome Zero, escreveu 53 livros, foi preso duas vezes durante a ditadura militar e é profundo defensor dos direitos humanos. Nessa conversa, expõe suas opiniões sobre o atual estado da Igreja Católica, o Papa Francisco, os recentes movimentos populares e a atuação do governo do PT. Confira.

Gusmão: No contexto da visita do Papa Francisco ao Brasil, o Datafolha lançou pesquisa que indica a queda do número de pessoas que se declaram católicas (de 75% da população em 1994 para 57% em 2013) e aumento daquelas que se declaram evangélicas – pentecostais e não pentecostais – (de 14% em 1994 para 28% em 2013). Que responsabilidade o senhor acredita que a Igreja Católica tem nesse cenário?

Frei Betto: A responsabilidade da Igreja Católica reside em sua resistência em aplicar as decisões do Concílio Vaticano II (1962-1965) e renovar os seus ministérios, ou seja, suas formas de serviço religioso. Enquanto uma Igreja evangélica forma um pastor ou uma pastora em 1 ou 2 anos, a católica exige que seja homem, celibatário, e com 8 anos de formação, 4 em filosofia e 4 em teologia… É preciso reabilitar os padres casados, que são 5 mil no Brasil. Muitos querem voltar ao ministério sacerdotal, celebrar missas, mas hoje estão impedidos. É preciso também permitir o acesso de mulheres ao sacerdócio. E acrescento: abrir o debate sobre a moral sexual.

Gusmão: O fato de o Cardeal Bergoglio ter escolhido o nome “Francisco”, sua tradição jesuíta e seu estilo como Papa indicam, em sua opinião, uma mudança de direção da Igreja que pode recuperar a participação perdida nesses últimos 19 anos no Brasil e retomar o envolvimento com a sociedade típico das Comunidades Eclesiais de Base?

FB: O nome Francisco já representa um programa de renovação. São Francisco de Assis simboliza: 1) a critica ao sistema produtivo que, em busca de lucro, produz miséria (razão de sua ruptura com o pai, Bernardone, pioneiro do capitalismo, e de sua nudez na praça de Assis, devolvendo ao pai o tecido manufaturado às custas da exploração do trabalho alheio); 2) o amor à natureza (ecologia); 3) a reforma da Igreja, mais próxima dos pobres.

Bergoglio sempre teve simpatia pelas CEBs. Presidiu a comissão redatora do Documento de Aparecida, em 2007, que revaloriza o papel das CEBs. Espero que seja coerente com o que escreveu e assinou.

Gusmão: O senhor vislumbra alguma possibilidade de que a Igreja, com o Papa Francisco, abra o debate sobre aborto e métodos contraceptivos?

FB: Diria que ele deverá abrir o debate sobre a moral sexual, tema congelado pela Igreja desde o século XVI. Então, esses temas serão abordados sob novos enfoques.

Gusmão: Em relação ao envolvimento da juventude com a religião, qual o significado da Jornada Mundial da Juventude nesse momento para o Brasil e para a Igreja?

FB: Uma grande festa juvenil com forte acento espiritual, e não propriamente religioso. A presença do papa e sua personalidade cativante certamente atrairão mais fieis à Igreja Católica.

Gusmão: Em sua coluna na Rádio Brasil Atual, o senhor comentou as manifestações de Junho: apontou a ausência de propostas claras por parte dos jovens e sugeriu que se compreendam com clareza as causas da insatisfação popular. Quais, em sua opinião, são as principais causas dessa insatisfação?

FB: A má qualidade de nossos serviços públicos, em especial educação, saúde e transporte. O poder público alega não ter recursos, mas eles não faltam quando se trata de montar o circo das Copas. Ora, que haja circo, mas pão é imprescindível.

Gusmão: Ainda em relação às manifestações, como o senhor avalia a resposta do poder público às demandas populares?

FB: Por enquanto tímida e vacilante. A presidente Dilma propôs reforma política via Constituinte. Logo voltou atrás e propôs plebiscito, rejeitado pelo Congresso como tendo validade para as eleições de 2014. Estamos pedindo a raposa – Os “300 picaretos do Congresso” denunciado há anos por Lula – para cuidar do galinheiro. É preciso voltar às ruas e exigir Reforma Política Já!

Gusmão: Em 1994, o senhor escreveu a cartilha “Por que eleger Lula presidente da República”. O Partido dos Trabalhadores (PT) completa, neste ano, dez anos no executivo federal e sofre críticas por ter se afastado de sua base popular. O senhor prestaria, hoje, o mesmo apoio à presidenta Dilma?

FB: Sobre o governo do PT escrevi dois livros “A mosca azul – reflexão sobre o poder” e “Calendário do poder”, ambos editados pela Rocco. Embora critico, considero os governos de Lula e Dilma os melhores de nossa história republicana. Darei meu voto à reeleição dela e farei campanha.

Gusmão: O senhor foi preso duas vezes durante a ditadura, período no qual escreveu suas “Cartas da Prisão”. De que forma o cerceamento de sua liberdade modificou sua vida e definiu sua atuação política futura? Que papel teve sua fé nesse processo?

FB: Como descrevo em “Cartas da Prisão” (Agir) e “Batismo de Sangue” (Rocco), o cárcere foi para mim um grande e doloroso retiro espiritual. Virou-me pelo avesso. Incutiu-me a certeza de que, ainda que eu não participe da colheita, faço questão de morrer semente…

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Categorias: Sociedade

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um comentário em “Frei Betto: Igreja, manifestações e o PT.”

  1. Frederik Dejonghe
    14/08 às 13:03 #

    Bela entrevista!

    Fiquei intrigado em saber como Frei Betto vê essa abertura do debate sobre a moral sexual pela Igreja Católica. E se essa demanda – que parece ser, na espiritualidade em geral, um ponto sensível, mas especificamente na Igreja Católica, com escândalos sexuais amplamente divulgados – encontra dentro da própria estrutura eclesiástica.

    Parabéns pelo Gusmão, pessoal!
    Largaram com bonitos passos!

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